BC interrompe infraestrutura blockchain do Drex e lança dúvidas sobre o futuro do “Real Digital”
O Banco Central (BC) comunicou aos participantes do Drex, o “Real Digital”, que vai desativar a infraestrutura tecnológica baseada em blockchain. A decisão, tomada em reunião na terça-feira (04), representa um freio no projeto.
Apresentado como a “versão digital do real”, o Drex também visava simplificar compras e vendas de imóveis e veículos, agilizar pedidos de crédito — inclusive rural — e reduzir burocracias em cartórios.
A expectativa era de implementação ainda neste ano, mas o futuro do projeto agora é incerto.
O modelo técnico adotado — baseado na Ethereum Virtual Machine (EVM) e no Hyperledger Besu — foi considerado inseguro e de alto custo. Segundo avaliação interna, a arquitetura “era inviável dentro das restrições atuais”.
O desligamento da plataforma de tecnologia de registro distribuído (DLT), utilizada nas fases 1 e 2 do projeto-piloto, também atendeu a uma demanda do mercado, que apontou o custo elevado de manutenção. A decisão levou em conta a ausência de previsão de uso da tecnologia na próxima etapa, a fase 3, uma vez que sua aplicação foi desenhada exclusivamente para os testes já concluídos.
O relatório da segunda fase do Drex, inicialmente previsto para outubro, deve ser entregue apenas no início de 2026. Essa etapa avaliou 13 casos de uso do real digital. Já a terceira fase deve concentrar os estudos em torno da eficiência do uso de ativos como garantia em operações de crédito, adotando uma abordagem “agnóstica quanto à tecnologia”, ou seja, sem pré-definições técnicas. As discussões estão previstas para começar no início do próximo ano.
O Drex vinha sendo desenvolvido em parceria com bancos, fintechs e empresas de tecnologia. Entre os participantes estavam Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, BTG Pactual, Caixa, Nubank, Banco Inter e Banco BV.
Também integraram o projeto cooperativas como Sicoob, Sicredi, Unicred, Ailos e Cresol, além de gigantes do setor tecnológico — Microsoft, Google, AWS, Mastercard, Visa, CPqD e TecBan. Outras instituições envolvidas incluíam B3, XP, MBPay e Nuclea.
Ainda nas fases anteriores, técnicos do projeto haviam apontado limitações na aplicação do modelo blockchain. Especialistas avaliam que a mudança não representa um retrocesso, mas um redirecionamento estratégico.
Apesar da pausa, o objetivo de longo prazo permanece: criar um ambiente interoperável para ativos tokenizados, em que a moeda de liquidação das transações seja emitida pelo próprio BC. Ainda não há definição sobre o total de fases do projeto nem sobre a possibilidade de retomar o uso da blockchain em etapas futuras.
Hoje, cerca de 90% das moedas digitais em circulação no Brasil são stablecoins. Diferentemente do Drex, elas são emitidas por empresas privadas e dependem de reservas que garantam seu valor — o que pode representar risco se o emissor não mantiver lastro suficiente.
O Drex, por sua vez, é responsabilidade direta do Banco Central e terá valor intrínseco como moeda oficial, integrado ao sistema financeiro nacional.
DREX E O CONTROLE ESTATAL
A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), principal voz de oposição ao Drex, propôs uma PEC que exige aprovação por dois terços do Congresso Nacional para implementar moedas digitais no país e proíbe a extinção do papel-moeda.
Para a parlamentar, o Drex pode facilitar o controle estatal e limitar a liberdade financeira.“Quem controla o dinheiro controla tudo”, alertou Zanatta, destacando a falta de debate político sobre o “Real Digital”.
Em entrevista ao Portal Claudio Dantas, Zanatta criticou a ausência de diálogo no Congresso: “O tema exige atenção maior. Parlamentares defendem o fim do dinheiro físico, enquanto outros apoiam a digitalização total. Isso pode ameaçar a liberdade”.
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