A leitura dos jornais pós-carnaval mostra que a opinião pública ainda está digerindo a nomeação de Gleisi Hoffmann para a Secretaria das Relações Institucionais. As análises buscam o significado do gesto e suas consequências.
Do lado do significado, é nítida a sensação de que houve uma virada à esquerda no governo. Muitos aconselharam Lula a voltar-se para o centro, ampliar espaços para partidos aliados e construir uma coalizão, mas ele fez o contrário e reforçou os espaços do PT na Planalto e na Esplanada.
Há quem leia nesse movimento um sinal de que Lula não planeja a reeleição e busca premiar aliados e encerrar seu ciclo fazendo um governo o mais à esquerda que conseguir, totalmente cercado pelos seus. Mas isso é especulação.
O que se deve reconhecer é que o viés esquerdista não é novo. Muito pelo contrário, ele está escrito na priorização de políticas distributivas e no discurso de “colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda”.
A diferença é que, agora, diante de um quadro econômico que se anuncia mais complicado, Lula, ao invés de fazer o conhecido dever de casa, uma agenda de arrumação fiscal, sinaliza que vai aumentar a aposta.
As consequências vão na direção da manutenção das dificuldades com o Congresso e, possivelmente, investimento em agendas com potencial de angariar apoio popular para enfrentar a falta de suporte dos partidos. Em outras palavras, tentar recuperar o apoio popular primeiro para conquistar votos entre parlamentares depois.
Faz sentido, portanto, que o novo líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (PT/RJ) sugerir que vai se dedicar a duas pautas neste ano, a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala 6×1, além de mergulhar de cabeça no acompanhamento do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF.
Outra consequência é a fragilização de Fernando Haddad, outro tema recorrente nos jornais, que sequer tem comparecido às reuniões de crise sobre preço de alimentos. A pauta que a Fazenda apresentou aos parlamentares no início do ano não tem sido lembrada por ninguém.
Há sinais, portanto, da consolidação de um novo eixo de poder para esta segunda metade do governo Lula que não tem qualquer restrição em dizer que a agenda será condicionada pela eleição de 2026. Isso nos leva a mais ações intervencionistas, a um governo mais reativo às pesquisas de opinião e à elevação da temperatura do discurso político.
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