A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no último sábado (28), encerrou um dos ciclos mais longos de poder no Oriente Médio contemporâneo. No comando do país desde 1989, após suceder Ruhollah Khomeini, o aiatolá permaneceu por 36 anos e oito meses à frente da República Islâmica, período marcado por centralização política, repressão interna e fortalecimento de estruturas econômicas vinculadas ao seu gabinete.
No centro desse sistema está o quartel-general para a Execução da Ordem do Imã (Setad), organização criada pouco antes da morte de Khomeini com a finalidade declarada de administrar bens considerados abandonados.
Uma investigação publicada pela Reuters, em 2013, revelou que a entidade acumulou um vasto portfólio imobiliário e empresarial ao longo dos anos, estimado em cerca de US$ 95 bilhões.
Segundo a agência, aproximadamente US$ 52 bilhões estariam concentrados em imóveis e cerca de US$ 43 bilhões em participações corporativas.
A apuração apontou ainda que propriedades foram incorporadas ao conglomerado por meio de decisões judiciais que alegavam abandono, contestadas, em alguns casos, por proprietários e herdeiros. Os ativos eram posteriormente leiloados ou integrados ao portfólio da organização, que passou a atuar em setores como petróleo, finanças, telecomunicações, indústria farmacêutica e agronegócio.
Embora a Reuters tenha afirmado não haver provas de uso pessoal direto dos recursos por Khamenei, o controle da Setad ampliou significativamente sua autonomia financeira e política, garantindo ao líder supremo acesso a recursos comparáveis.
Além da estrutura doméstica, reportagens da Bloomberg detalharam a expansão de ativos internacionais atribuídos a Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá e apontado por aliados como possível sucessor. De acordo com a publicação, Mojtaba teria estruturado uma rede de empresas de fachada e intermediários em países como Reino Unido, Suíça, Liechtenstein e Emirados Árabes Unidos.
A investigação da Bloomberg identificou propriedades de alto padrão em Londres, incluindo uma residência na Bishops Avenue, adquirida em 2014, além de investimentos no setor marítimo no Golfo Pérsico, imóveis em Dubai e participações em empreendimentos hoteleiros na Europa.
O nome de Mojtaba não aparece formalmente como proprietário direto dos bens, segundo a apuração, que aponta o uso de estruturas societárias para ocultar a titularidade.
Em 2019, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra Mojtaba, alegando que ele atuava como representante do líder supremo em assuntos estratégicos, mesmo sem ocupar cargo oficial no governo. A pasta americana também o vinculou à Força Quds da Guarda Revolucionária e à milícia Basij.
Mais recentemente, o governo britânico impôs medidas restritivas contra o empresário por supostas “atividades hostis”, segundo comunicado oficial citado pela Bloomberg, o que pode impactar ativos mantidos na Europa.
No plano político, o governo de Khamenei foi marcado por denúncias recorrentes de repressão a mulheres, minorias religiosas e opositores, além do apoio financeiro e logístico ao chamado “Eixo da Resistência”, que inclui o Hamas, o Hezbollah e o movimento Houthis.
