O Banco de Brasília (BRB) enviou ao menos 21 cobranças por e-mail ao Banco Master entre julho e agosto de 2025, em meio a uma dívida que ultrapassou R$ 1,6 bilhão, segundo documentos internos obtidos pelo portal Metrópoles. As mensagens foram trocadas enquanto as instituições ainda aguardavam a decisão do Banco Central do Brasil sobre a tentativa de aquisição do Master pelo BRB.
As cobranças indicam que o BRB buscava reaver valores ligados a carteiras de crédito adquiridas anteriormente, em meio a impasses sobre a qualidade dos ativos e a falta de repasses financeiros por parte do Banco Master. Os primeiros sinais de problemas teriam surgido em fevereiro de 2025, quando o banco público identificou possíveis inconsistências em parte das carteiras negociadas, classificadas internamente como de alta inadimplência.
Na sequência, o BRB estruturou um grupo de trabalho para avaliar os contratos e apontou um rombo inicial de aproximadamente R$ 1,3 bilhão em repasses pendentes até março. Além disso, surgiram dúvidas sobre a documentação e a garantia dos créditos, já que não havia comprovação suficiente de lastro em parte das operações.
Em abril, as instituições chegaram a renegociar parte dos valores, com a quitação parcial da dívida, reduzida para cerca de R$ 65 milhões. Ainda naquele mês, foi firmado um novo acordo de pagamentos parcelados, com parcelas de R$ 15 milhões. No entanto, segundo os registros, os compromissos não foram cumpridos integralmente.
Em uma das primeiras comunicações formais, o saldo em atraso já somava R$ 456 milhões, além de juros e multa contratual. Representantes do Banco Master chegaram a responder que parte dos valores seria quitada ainda em julho, mas as cobranças continuaram sem solução efetiva.
Com o avanço da inadimplência, o BRB passou a questionar também a ausência de um relatório de auditoria independente prometido pelo Banco Master para atestar a qualidade das carteiras cedidas. O pedido foi reiterado diversas vezes sem resposta conclusiva, segundo os documentos.
Em meio às negociações, o Master ainda incluiu na composição da dívida valores relacionados a contratos de clientes falecidos antes da cessão dos ativos ao BRB, o que ampliou o volume contestado.
Somente após a 20ª cobrança formal, em agosto, houve nova manifestação do Banco Master, com promessa de pagamento parcial. Poucos dias depois, o montante total já ultrapassava R$ 1,6 bilhão.
Apesar do impasse, o BRB seguiu avaliando novas aquisições de carteiras do banco privado. Em 21 de agosto de 2025, uma área executiva do banco público chegou a recomendar a compra adicional de cerca de R$ 750 milhões em créditos do Master, mesmo diante de alertas internos.
Entre os riscos apontados por técnicos estavam a alta inadimplência estimada, a falta de comprovação documental de parte dos contratos e o impacto potencial sobre os índices de liquidez e capital da instituição. Um dos relatórios internos também alertava que a operação poderia ser interpretada pelo regulador como exposição excessiva ao Banco Master, com necessidade de provisões adicionais.
Dias depois, o Banco Central rejeitou a operação de aquisição do Banco Master pelo BRB, decisão comunicada oficialmente em setembro de 2025, encerrando a tentativa de compra. Após isso, o banco estatal deixou de adquirir novas carteiras de varejo da instituição privada, mantendo apenas renegociações pontuais de ativos já adquiridos.
