Seja bem-vindo, “índio ostentação”: os jovens das aldeias são iguais aos outros - Claudio Dantas
Brasília, Segunda, 22 de junho de 2026
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Seja bem-vindo, “índio ostentação”: os jovens das aldeias são iguais aos outros

Jovens enauenês-nauês gravam vídeos mostrando dinheiro, iPhones e carros. Reprodução/Instagram
Jovens enauenês-nauês gravam vídeos mostrando dinheiro, iPhones e carros. Reprodução/Instagram

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Todo mundo é meio inconsequente quando é awitariti — é a palavra da língua dos enauenês-nauês, povo indígena do noroeste do Mato Grosso, para os rapazes na faixa etária em torno da puberdade.

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Viralizaram nas últimas semanas diferentes vídeos de influenciadores locais, como o jovem Holikialari Enawêne, de 19 anos, que tem 769 mil seguidores no Instagram. O conteúdo é às vezes debochado e provocativo: eles ostentam maços de dinheiro, carros e iPhones. “Hoje é o ritual da Hilux”, brinca o adolescente nos vídeos. “Ninguém gosta de Samsung nesta aldeia, todos de iPhone”.

 

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Juntos, Holikialari e seus amigos ouvem tecnobrega enquanto passeiam de picape e tentam acompanhar, nem sempre com sucesso, as letras em português. O influenciador é mais fluente que alguns de seus parentes que o acompanham nos vídeos, mas ainda tem um sotaque forte de sua língua-mãe do tronco linguístico aruaque.

Em resposta aos vídeos, alguns internautas e até um veículo de comunicação alegaram que os jovens enauenês-nauês estariam usando dinheiro de um “Cartão Funai” ou “Bolsa Funai” para fazer seus vídeos de ostentação. Há um problema: não existe nenhum desses benefícios, dentro ou fora da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Silvia Waiãpi: “Querem produzir e ser independentes”

Conversei com a ex-deputada Silvia Waiãpi (PL-AP), também uma índia — que prefere ser chamada de índia — para entender a situação.

Segundo Silvia, os enauenês-nauês, que têm pouco contato com o resto do país, “estão tentando se desenvolver na agricultura”. Os membros da etnia que ela conhece “fazem de tudo para ser iguais a qualquer cidadão brasileiro. Querem produzir e ser independentes”.

Não que ela aprove todos os comportamentos nos vídeos: “Quanto aos jovens, em qualquer sociedade cometem excessos, e é preciso orientação formal”, comenta a ex-parlamentar.

Ou seja, o mais provável é que a relativa prosperidade mostrada pelos jovens índios influenciadores venha de atividades econômicas legítimas — incluindo a de ser influenciador. Se fossem como os indígenas que recebem auxílio em dinheiro do Estado, a ostentação seria “impossível”, afirma Silvia.

Quando depende de assistência do governo, “o indígena é condenado à miséria, quando o segregam numa reserva onde a terra não é dele, e sim do governo”, comenta a líder waiãpi. “Eles só podem fazer aquilo que as ONGs mandam, sendo impossível a ostentação”.

Existem, também, traficantes de drogas entre os indígenas. Mas não parece ser o caso, pois Holikialari, em um de seus vídeos, afirma grande aversão a drogas ilícitas como a maconha.

Parte do estranhamento vem de uma ideia antiquada e ultrapassada de índio. “A sociedade criou no seu imaginário um estereótipo de indígena desnudo, analfabeto, carente e dependente, de arco e flecha”, comenta Silvia Waiãpi. “O índio integrado está por aí, rondando as cidades, inserido na sociedade nacional”.

As origens dos boatos sobre o “índio ostentação”

Os boatos sobre “Cartão Funai” parecem ter duas origens. No começo de 2023, quando o Ministério da Saúde manifestou preocupação com os yanomami, os vídeos dos enauenês-nauês circularam com a falsa afirmação de que eram da mesma etnia que passava por dificuldades, incluindo a fome. A intenção era apontar uma suposta incongruência entre a preocupação do governo e a situação real.

No mesmo ano, viralizou um vídeo do influenciador Kauri Waiãpi, que usa o apelido “Daldeia” nas redes sociais e gosta de fazer conteúdo humorístico — é bem possível que ele tenha inspirado os vídeos de Holikialari e seus amigos. Kauri fez uma piada que muitos levaram a sério: ele brincou que estava usando dinheiro da Funai para comprar picanha e dar para seus cachorros.

Silvia, da mesma etnia, não curtiu: “O ‘humor’ do Kauri, embora seja livre, está causando um desserviço para a sociedade brasileira, que deveria estar solidária ao indígena como brasileiro que precisa de igualdade social. As piadas criam um ideal imaginário de que o índio não deve ser levado a sério”, ela opina.

Por um tempo, Kauri foi representado pela agência Mynd8, famosa por estar por trás de contas de fofoca com tendências de esquerda que, ao publicar uma notícia falsa, levaram à tragédia de Jéssica Canedo, no ano passado. A página do influenciador, ainda visível em arquivo, foi deletada do site da agência silenciosamente em algum momento desde janeiro de 2024.

Talvez um fato ajude a explicar o desligamento. Em um vídeo publicado há dez dias, Kauri critica Lula, junto com Bolsonaro, enquanto mostra as condições precárias de uma escola construída de improviso com madeira e palha em sua aldeia: “tudo ladrão, tudo bandido, só quer roubar o povo”.

Pessoalmente, contudo, Kauri também não precisa de nenhuma ajuda do governo. Só com seu alcance no YouTube, o portal de estatísticas sobre criadores de conteúdo Social Blade calcula que ele deve ganhar US$ 1,5 mil a US$ 25 mil por mês.

Ao contrário do que a seleção da “ostentação” pode fazer parecer, Holikialari Enawêne não é nenhum jovem de cabeça oca. Ele rebate os argumentos de quem alega que o uso de tecnologia ameaçaria sua cultura, afirma ter orgulho de sua cultura e compartilha os rituais, paisagens e hábitos de seu povo, além de alguns fatos, como a chegada tardia da escola à aldeia somente em 2018. Ele até atua como intérprete para os colegas que não falam português.

A ostentação tem um sinônimo que é um termo técnico do estudo do comportamento humano: consumo conspícuo. E vem de várias formas, dos rappers que exibem dentes de ouro aos rapazes da cidade em que cresci no interior de Minas Gerais, que rebaixam seus carros, colocam luzes coloridas no interior dos veículos e tocam músicas péssimas com volume ensurdecedor. Enquanto isso, o ministro Alexandre de Moraes exibe um relógio Patek Phillippe avaliado em R$ 400 mil. Se ele pode ostentar, os nativos também podem.

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