Na primeira fase da operação contra o banco Master, a Polícia Federal identificou duas associações de servidores públicos da Bahia como origem dos consignados que integrariam a carteira de CDBs repassadas para o Banco Regional de Brasília, por mais de R$ 12 bilhões: a Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Adm Direta do Est da Bahia (Asseba) e a Associação dos Servidores Técnico-Administrativo e Afins do Estado da Bahia (Asteba).
Ambas são alvos de processos na Justiça e queixas no portal ReclameAqui por descontos irregulares de associados, mesmo objeto das investigações da CPMI do INSS. Numa dessas reclamações, registrada em janeiro de 2024, um professor relata que foi alvo de “venda casada”, sendo obrigado a se associar à entidade e que o cancelamento estaria condicionado ao pagamento total do empréstimo.
“Coagindo a pessoa a ficar presa em um contrato que só está bom para uma as partes. Eu nunca usei e não tenho interesse da assistência médica da Asseba”, diz. Ele reclama que estava sendo descontado diretamente no contracheque pelas duas associações, pagando R$ 80,00 por cada uma, num total de R$ 160,00.
Outra servidora registrou queixa em setembro de 2022, alegando desconto ainda maior, no valor de R$ 430,56 (R$ 215,28 por cada associação) como “benefício assistencial”. “Esse desconto é ilegal. Tentei contato com eles, tanto para pedir a suspensão desse desconto assistencial, quanto para ter o valor de quitação dos empréstimos, porque não quero mais nada com essa associação (desgastante). Me disseram que só poderiam retirar o benefício, bem como me passar o valor de quitação dos empréstimos, pessoalmente, o que já errado, dificultando meu problema”, escreveu.
Em mais uma reclamação, de março de 2022, outro servidor relata que fez um empréstimo na Asteba/Asseba, tendo também um desconto de R$ 160 como “mensalidade” associativa. “Como se não bastasse, estão descontando do meu contracheque R$ 216 de um benefício que não tenho. Então ou essa Associação retira do meu contracheque estes valores de associada, essa taxa, ou irei requerer na justiça a devolução corrigida de tudo que foi descontado do meu contracheque.”
Em novembro de 2023, outra servidora reclamava inclusive de descontos no contracheque, mesmo depois de encerrar o contrato de consignado com as citadas associações. Outro denunciou que foi obrigado a assinar o contrato de adesão, foi descontado por mais de 40 meses, pediu para cancelar o desconto e não foi atendido. “As associações se recusam a fornecer qualquer comprovante ou protocolo do meu pedido de desfiliação”, escreveu, em novembro de 2025.
Há casos que remontam o ano de 2020 e que acabaram na Justiça, com ganho de sentença para os servidores, confirmando a ilegalidade da prática de cobrança de mensalidade associativa.
O SÓCIO PETISTA DE VORCARO
As investigações da Compliance Zero identificaram indícios que ligam ambas as associações a Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro e considerado o elo do esquema financeiro com o PT da Bahia, via Rui Costa e Jaques Wagner. De acordo com a PF, o telefone e o e-mail registrados na Receita pelas associações pertencem à empresa Terra Firme da Bahia, de Lima.
“As associações Asteba e Asseba informaram à Receita Federal, como e-mail de contato, o endereço eletrônico ‘[email protected]’, que é o mesmo endereço de correio eletrônico da empresa Terra Firme da Bahia Ltda […], de propriedade exclusiva de Augusto Lima. A Asseba e a Terra Firme ainda compartilham o mesmo telefone de contato.”
Ontem, mostramos que o Banco Central, mesmo ciente das fraudes envolvendo o Master, autorizou a venda do controle do Banco Voiter — atual Banco Pleno — ao empresário. A operação foi aprovada em julho de 2025, durante o processo de avaliação do negócio com o BRB e pouco antes da liquidação extrajudicial do banco de Vorcaro.
O Banco Pleno, que integrava o conglomerado prudencial do Master, permaneceu fora da liquidação decretada em novembro de 2025. Da mesma forma, permanecem ativas as empresas Tirreno e Cartos, apontadas como intermediárias da operação de venda da carteira de CDBs forjados.
QUEM É AUGUSTO LIMA?
Augusto Ferreira Lima construiu carreira no setor de crédito consignado e ganhou projeção ao se tornar sócio e CEO do Banco Master. Natural da Bahia, iniciou a atuação no mercado financeiro a partir de 2018, com a privatização da Empresa Baiana de Alimentos durante o governo estadual de Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil.
A partir da estrutura da antiga Ebal, Lima criou o Credcesta, produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, com convênios firmados com o governo da Bahia. O modelo ganhou escala e foi incorporado ao Banco Master após sua entrada na sociedade com Vorcaro, em 2019. Era considerado a ‘joia da coroa’ do banco, sendo responsável por cerca de 50% do faturamento da instituição.
Lima deixou o Master em maio de 2024. Em junho de 2025, adquiriu o Banco Voiter, que passou a se chamar Banco Pleno, após autorização do Banco Central de Gabriel Galípolo. Ele realizou aportes de cerca de R$ 160 milhões e concentrou na nova instituição as operações de crédito consignado, incluindo o Credcesta.
Em novembro de 2025, Augusto Lima foi preso na Operação Compliance Zero. Na residência do empresário, a PF apreendeu cerca de R$ 1,6 milhão em espécie e bens de alto valor. Ele foi posteriormente solto, e as investigações seguem em andamento.
Apesar da prisão e das apurações, o Banco Pleno segue operando, assim como a Tirreno e a Cartos, de parceiros de Lima. A separação societária anterior à liquidação do Master e a autorização formal do Banco Central garantiram a blindagem. Galípolo precisa explicar por quê?
