Ele tinha uma das posições acadêmicas mais prestigiosas da área do direito: professor visitante em Harvard. Mas, sabe-se lá por que cargas d’água, Carlos Portugal Gouvêa — que também é professor da USP e cofundador da ONG “Sou da Paz” — escolheu a noite de 1º de outubro para “caçar ratos” com uma arma de pressão nas imediações de uma sinagoga em Brookline, Massachusetts (região de Boston).
Era véspera do Yom Kippur, a data mais santa do ano para o judaísmo. Ao chamar a atenção de dois seguranças do templo Beth Zion com dois disparos, Gouvêa se engajou em uma “breve luta corporal” com eles, de acordo com o relatório policial. Ele deixou ao menos uma janela de carro estilhaçada em sua alegada caçada a ratos com chumbinho.
Agora, dois meses depois de ser afastado temporariamente de sua posição pela Universidade de Harvard, ele foi detido pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), teve seu visto revogado e concordou em fazer uma autodeportação para o Brasil.
Tricia McLaughlin, secretária assistente do Departamento de Segurança Interna (DHS), caracterizou as atividades de Gouvêa em sua caça amalucada como um ato de “antissemitismo descarado”. Essa caracterização provavelmente é injusta.
“É um privilégio trabalhar e estudar nos Estados Unidos, não um direito. Não há espaço nos EUA para atos descarados e violentos de antissemitismo como este. São uma afronta aos nossos princípios como país e uma ameaça inaceitável contra os cidadãos americanos que obedecem à lei”, disse McLaughlin.
Sinagoga nega que ações estranhas de Gouvêa tenham sido antissemitismo
A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em outubro, reagiu ao caso dizendo que “ganhou dimensões desproporcionais” e negou que tenha sido um incidente antissemita.
A instituição apontou, corretamente, que o próprio templo Beth Zion afastou, “por completo, ter se tratado de ocorrência antissemita”. “Além disso, o professor tem afinidades, inclusive laços familiares, com a comunidade judaica”, afirmou a nota, fazendo uma referência indireta à esposa de Gouvêa, Mariana Pargendler, advogada e judia.
Em e-mail aos congregantes da sinagoga de Brookline, o presidente do templo, Larry Kraus, e o diretor executivo Benjamin Maron disseram que “não têm razão para acreditar que tenha sido um evento antissemita”, segundo o jornal The Harvard Crimson.
Harvard, um dos alvos de pressão do governo Trump por ter feito vista grossa a incidentes de antissemitismo em seu campus desde o ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, se recusou a comentar a autodeportação e o enquadramento dado pelo DHS. As informações são da agência Reuters.
A universidade tem vencido algumas das batalhas contra Trump: em setembro, um juiz federal decidiu que o corte de US$ 2 bilhões em verbas de pesquisa foi ilegal.
O visto de Gouvêa, temporário e na categoria de não-imigrante (J-1), foi revogado duas semanas após a detenção na noite fatídica das caçadas de Carlinhos.
Em 13 de novembro, o professor aceitou um acordo judicial em que se declarou culpado de um dos crimes. As autoridades aceitaram remover três acusações.
Ongueiro de esquerda e pró-Moraes
É difícil para este colunista ter muita simpatia por Gouvêa, por causa de seu histórico como ongueiro de esquerda e palpiteiro midiático que apoia Alexandre de Moraes. A menos que o incidente tenha sido causado por alguma crise psicológica, mas isso não emergiu em dois meses.
O caçador de ratos é um dos fundadores do “Instituto Sou da Paz”. Além de ser um ralo de dinheiro estrangeiro, promove o besteirol da esquerda sobre segurança, uma das piores áreas a serem atrapalhadas por ideologia em um país campeão em assassinatos.
Esta ONG liderou a maior campanha de controle de armas do país e contribuiu para o Estatuto do Desarmamento de 2003. Pessoalmente, não tenho opinião formada sobre o direito à posse e porte de armas. Só não acho que as ideias comuns na esquerda sobre o assunto, que, como de praxe, exacerbam o papel do controle estatal, promovam a segurança.
E não é só esta ONG, Gouvêa também ajudou a fundar a Conectas, outra ONG de esquerda que está na folha de pagamento de George Soros. Alex Soros, que herdou o império de financiamento de ativismo do pai, disse recentemente ao New York Times que o wokismo foi um erro. Pois foi um erro que ele fomentou: a Conectas promove ativamente o identitarismo sob a rubrica dos “direitos humanos”.
O professor da USP e ex-professor de Harvard também se envolveu na politização das empresas pela via ESG (“Governança ambiental e social”), por meio de outras instituições como o IDGlobal (Global Law Institute) e a boutique jurídica de consultoria em lacração PGLaw. “ESG é obrigação”, disse Gouvêa certa vez em um evento em Harvard para promover a ideologia.
Desde que Alexandre de Moraes foi corretamente sancionado pelos Estados Unidos pela Lei Magnitsky Global, por ser um violador de direitos humanos, Gouvêa fez um tour midiático defendendo o ministro em veículos como Valor Econômico, GloboNews, UOL e outros.
Gouvêa, que, a julgar por sua atuação típica de ongueiro de esquerda, não parece ter grande apreço pela liberdade de expressão — um direito humano codificado no Artigo 19 da Declaração Universal — alegou em entrevista ao Valor que as sanções contra Moraes foram “fora do normal do histórico da lei”. Também usou termos como “banalização” e “aplicação aleatória”.
Tem mais. Em 2022, ele dividiu na Brazil Conference de Harvard uma mesa com o ministro da Justiça e ex-ministro do STF, Ricardo Lewandowski. A mensagem do painel foi de aplauso ao ativismo judicial da corte, chamando de “papel proativo” e “inovação judicial em tempos de crise”.
Bem-vindo de volta ao Brasil, Carlos Gouvêa. Por aqui, o seu time da lacração, do autoritarismo em nome de utopia, da juristocracia e da destruição de movimentos políticos legítimos em nome da democracia certamente está ganhando. Por enquanto. Como alento pela deportação, tenho certeza que há muitos roedores, exóticos e nativos, para caçar.
