Ao contrário de Charlie Kirk, youtuber stalinista nunca foi chamado de “extremo” em manchetes brasileiras - Claudio Dantas
Brasília, Terça, 21 de julho de 2026
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Ao contrário de Charlie Kirk, youtuber stalinista nunca foi chamado de “extremo” em manchetes brasileiras

Jones Manoel em evento universitário. Foto: Alebasi24
Jones Manoel em evento universitário. Foto: Alebasi24

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

A imprensa progressista — que é quase toda a imprensa, pois mais de 80% dos jornalistas se consideram de esquerda no Brasil — tem usado o assassinato do ativista conservador americano Charlie Kirk, 31 anos, como oportunidade para rotulá-lo como “extremo”.

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Nas redes sociais, o portal Metrópoles o rotulou como “influencer de extrema-direita” (mas não na reportagem que acompanhava a postagem). O jornal O Globo usou a manchete “Quem é Charlie Kirk, influenciador de extrema direita baleado durante palestra em universidade dos EUA”, depois trocou “de extrema direita” por “conservador” silenciosamente, mas o título original ainda pode ser lido na URL. Também usaram o rótulo os veículos G1, CartaCapital, Terra, entre outros.

Influenciador de extrema esquerda

O influenciador de extrema esquerda Jones Manoel, 35 anos, já disse que “matar pessoas, em uma revolução, é uma contingência que acontece” (disse isso em 20 de janeiro de 2020). O youtuber, que já tentou ser governador de Pernambuco, alegou que “em princípio é contra a pena de morte”, mas abre exceção para o uso do assassinato como ferramenta política para sua sonhada revolução.

Ele “defenderia a pena de morte para crimes contrarrevolucionários e pessoas financiadas por organizações estrangeiras”, ou seja, qualquer pessoa que fique no caminho.

Já defendi, nesta coluna, que aplicar o adjetivo “extremo” em uma posição política é uma opinião. Assim, não tem lugar em texto noticioso, só em editoriais e colunas de opinião. Mas pode ser que algumas redações pensem que suas opiniões, certamente influenciadas por seus vieses, são pareceres técnico-científicos, objetivos.

Em política, pouca coisa é mais extrema que tratar com normalidade e simpatia a morte dos adversários, como faz Jones Manoel. Ele se autorrotula “marxista-leninista”.

Isso já é suficiente para configurar um extremismo, já que Vladimir Lênin chamou por violência: em carta de 1918 aos bolcheviques da cidade de Penza, ele ordenou “Enforquem (e certifiquem-se de que o enforcamento ocorra à vista de todos) no mínimo 100 kulaks [camponeses] conhecidos, homens ricos, sanguessugas”.

Mas Manoel vai além. Ele faz um revisionismo histórico para tornar o genocida Josef Stálin mais simpático e alega que a imagem negativa do líder foi construída por propaganda anticoumunista. Stálin foi responsável pelo Holodomor, fome artificial que matou milhões na Ucrânia.

Qual rótulo aplicam em Jones Manoel?

Fiz uma busca extensiva de todas as menções a Jones Manoel na imprensa em português em busca de algum paralelismo com a rotulação de Charlie Kirk. Usei o Google, digitei “Jones Manoel” com aspas, e li todos os títulos e chamadas dos resultados na categoria “notícias”.

“Influencer comunista”, chamou O Globo há três semanas. O rótulo é correto, mas tem uma certa neutralidade quando comparado a “extrema esquerda”, já que os próprios comunistas chamam a si mesmos de comunistas. Na chamada: “historiador e influenciador comunista” — essa descrição também é usada pelo G1, do mesmo grupo de comunicação.

A ISTOÉ Independente chamou o homem de “historiador e militante comunista”, há uma semana. A CartaCapital, há um mês, usou só “historiador”.

A Folha de S. Paulo, que usou a morte de Kirk como oportunidade para criticá-lo por defender o direito à posse de armas, chamou Manoel de “youtuber marxista-leninista”.

O Marco Zero Conteúdo, que se diz uma ONG dedicada a promover o “jornalismo investigativo e independente”, chama o marxista de “historiador e youtuber”, mesmos termos usados pelo portal Terra e o site ICL Notícias. O Metrópoles preferiu “influencer de esquerda” e “historiador e influenciador digital”.

O portal petista Brasil 247 chamou Manoel de “esquerda radical” há um ano, no contexto de uma entrevista em que suas opiniões foram tratadas com neutralidade e radicalismo, como apenas uma estratégia aceitável. O mesmo termo foi usado pelo jornal El País.

A Revista Opera, do portal de esquerda Opera Mundi, deu espaço em entrevista de março de 2024 para Jones Manoel glorificar a violência “do oprimido” e criticar Hannah Arendt porque a filósofa “demoniza o papel da violência dos oprimidos”.

Um dos poucos tratamentos claramente pejorativos de Manoel foi feito pela revista Veja em 2023: “PCB expulsa jovem guru comunista que fez a cabeça de Caetano”.

A conservadora Gazeta do Povo não usou “extrema esquerda”, mas chamou corretamente de “defensor de ditaduras” em março de 2023.

Em 2020, o Intercept Brasil publicou um texto só para criticar, de seu ponto de vista de esquerda, defensores de ditaduras como Jones Manoel, mas ainda não o rotulou como “extremo”.

Não estou sugerindo que a imprensa de linha editorial mais conservadora e liberal adote a prática de colocar rótulos opinativos toda vez que mencionar em títulos alguém de extrema esquerda como Jones Manoel.

Mas a diferença na comparação com a rotulação de Charlie Kirk é notável, e serve para ilustrar que a entrega de muitos jornalistas a arroubos de opinião dentro de texto noticioso tem um erro sistemático previsível.

 

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