Nos diálogos expostos pela Vaza Toga no ano passado, dois assessores de Alexandre de Moraes se queixavam da inação da Interpol e do governo dos EUA ante os reiterados pedidos de prisão e extradição de Allan dos Santos. “Dá vontade de mandar uns jagunços pegar esse cara na marra e colocar num avião brasileiro”, escreveu Marco Antônio Vargas a Airton Vieira.
Agora, descobre-se que no caso de Flávia Magalhães isso quase aconteceu. Em 3 de janeiro de 2024, Moraes determinou a prisão da brasileira-americana, acionando em seguida o oficial de ligação da Polícia Federal em Miami (EUA), delegado Marcelo Ivo. A informação consta de ofício, obtido pela reportagem e assinado pelo delegado Fábio Mertens, da Coordenação Geral de Cooperação Policial Internacional.
Em vídeo postado ontem à noite em seu perfil no X, Flávia diz que foi monitorada por gente da Polícia Federal durante uma manifestação em Fort Lauderdale, em 25 de fevereiro. Ela conta que, quando chegou ao local, uma das organizadoras a avisou da presença da PF, recomendando que ela não fizesse discursos naquele dia e permanecesse na barraca de água.
“Ela me mostrou a pessoa. Não lembro da cara, mas estava de marrom. Ele ficava rondando a barraca”, diz.
Segundo Flávia, havia outras pessoas participando do monitoramento e que, por sorte, ficou na companhia de outro manifestante o tempo todo dentro da barraca.
INVESTIGAÇÃO ILEGAL
A investigação de Flávia, como tantas outras, foi aberta de ofício pelo ministro, sem qualquer consulta prévia ou posterior ao Ministério Público. Ele se baseou numa postagem em que ela acusava Moraes de ter visitado Marcola na cadeia em Brasília, mas sem apresentar provas. “O narcotráfico está dentro do STF”, dizia no post.
O ministro determinou então ao X (ex-Twitter) o bloqueio do perfil de Flávia, sob pena de multa diária de R$ 100 mil, com o fornecimento dos dados cadastrais. A plataforma alegou inicialmente que não poderia cumprir a ordem, por se tratar de postagem feita a partir do exterior. Ele também ordenou o bloqueio à Anatel, mas sem sucesso.
Moraes mandou bloquear o passaporte brasileiro de Flávia, classificando-a como “evadida” do território nacional, sem considerar sua residência nos EUA e nacionalidade, obtida em 2012.
“Observo que a investigada insiste no descumprimento de decisões por mim anteriormente proferidas ao continuar divulgando notícias fraudulentas nas redes sociais, bem como se utiliza de passaporte internacional para ingressar e sair do país sem se submeter às autoridades nacionais, o que já constitui motivo suficiente para a decretação da prisão preventiva.”
A informação do ofício confirmando o acionamento do oficial de ligação e o relato de Flávia Magalhães podem agravar ainda mais a situação de Moraes perante as autoridades americanas, e incendiar ainda mais a relação bilateral; num momento em que Lula tenta criar um canal de diálogo com Donald Trump.
