Com o anúncio do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de que deixará o União Brasil para se filiar ao PSD, o partido de Gilberto Kassab altera o desenho eleitoral de 2026 e interfere diretamente na montagem dos palanques estaduais.
Segundo lideranças partidárias, o objetivo central do movimento é posicionar o PSD como alternativa de centro-direita sem Jair Bolsonaro, com nomes apresentados como opção para um cenário de pós-bolsonarismo.
Nos bastidores, a leitura é de que a filiação de Caiado representa o movimento mais relevante no campo desde o lançamento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anunciado por Jair Bolsonaro em dezembro do ano passado.
Com a chegada ao PSD, Caiado passa a integrar um grupo formado também pelos governadores Ratinho Junior (PSD-PR) e Eduardo Leite (PSDB-RS). Pelo desenho atual, um dos três deve liderar uma eventual chapa presidencial.
Nos bastidores, a movimentação de Kassab é interpretada como um sinal de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não deve disputar a Presidência em 2026.
Kassab sempre defendeu Tarcísio como sucessor natural de Bolsonaro. Com a escolha de Flávio Bolsonaro como pré-candidato do PL, o PSD passou a trabalhar com a hipótese de candidatura própria.
Aliados avaliam que Kassab não faria um movimento desse porte sem apostar que Tarcísio está fora da disputa. Caso o cenário mude, interlocutores apontam que uma negociação com o PSD seria mais simples, seja para composição de chapa, seja para eventual retirada do partido da corrida presidencial.
A estratégia também coloca Tarcísio em posição delicada. Apesar do apoio público à família Bolsonaro, o governador paulista construiu imagem mais moderada. Com Flávio lançado e uma alternativa de centro-direita em formação, aliados questionam como ele se posicionará nos palanques.
Flávio Bolsonaro, por ora, afirmou considerar “muito bom” o movimento do PSD.
Para o cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy, a filiação de Caiado indica dois movimentos claros no sistema partidário.
Segundo ele, o primeiro é a tentativa do PSD de se consolidar como principal referência entre eleitores independentes e de centro. O segundo é o caminho inverso adotado pela federação União-PP.
Barreto avalia que, após declarar rompimento com o governo Lula no segundo semestre de 2025 e exigir a saída de ministros, a federação agora sinaliza neutralidade ao abrir mão de seu único presidenciável. Na prática, os estados ficariam livres para definir alianças.
“Agora, ao renunciar ao único presidenciável que tinha nas suas fileiras, o UP dá sinais de que pode ficar neutro na disputa, liberando os estados para escolherem o caminho que quiserem”, disse.
Para o analista, a mudança coincide com o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro. Ele lembra que, em 2022, ACM Neto recusou apoio de Jair Bolsonaro na disputa pelo governo da Bahia.
“Em comum a esses movimentos, portanto, está a decisão de não marchar sob o comando do clã Bolsonaro novamente”, afirma.
Plano do PSD
Gilberto Kassab já afirmou que o PSD terá candidato próprio à Presidência. Segundo ele, Ratinho Junior é hoje o nome em melhores condições, com Eduardo Leite como segunda opção. A definição oficial deve ocorrer nas próximas semanas.
“Nós temos dois pré-candidatos, ou é o Ratinho Junior, ou é o Eduardo Leite. Hoje, o Ratinho Junior está em melhores condições”, disse Kassab.
Nos bastidores do PT, a expectativa é negociar apoios regionais caso a caso. Relatos indicam que um apoio fechado do PSD a Lula se tornou mais difícil diante do protagonismo de Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite, todos com perfil declarado de oposição ao petismo.
Enquanto isso, no PL, Valdemar Costa Neto aposta no “tudo ou nada” pela candidatura de Flávio Bolsonaro. A estratégia inclui apresentá-lo como um nome de perfil mais moderado e reduzir rejeições, com apoio de Tarcísio, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira como principais cabos eleitorais.
