O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, não foi convidado para o funeral de Matilda. A menina de 10 anos foi uma das 15 vítimas do ataque terrorista islâmico contra uma celebração da festa judaica do Hanucá, o Festival das Luzes, na praia de Bondi, Sydney, no último domingo (14).
“Ele falhou com a minha filha e com todas as vítimas da tragédia. Se tivessem feito mais, não teria acontecido”, disse Valya, mãe de Matilda. O pai, Michael, concorda: “Ele traiu as pessoas judias da Austrália e do mundo todo”, afirmou. “O que diabos ele estava pensando?” Os pais da menina assassinada preferem ocultar o sobrenome da família, temendo mais ataques. A irmã mais nova de Matilda, Summer, viu a irmã morrer.
Os perpetradores do ataque a tiros foram Sajid e Naveed Akram, pai e filho. Segundo testemunhas oculares, eles chegaram ao local com um carro decorado com a bandeira do Estado Islâmico. Sajid foi morto no tiroteio com a polícia e Naveed foi ferido. Após um período de coma no hospital, o terrorista de 24 anos acordou e foi formalmente acusado de 59 crimes.
Houve ao menos 13 ataques terroristas proeminentes em 2025 motivados pelo islamismo radical, com no mínimo 428 vítimas. Em 1º de janeiro, Shamsud-Din Jabbar matou 14 pessoas e feriu outras 57 em Nova Orleans, EUA. Em fevereiro, no mínimo outros 34 morreram no Mali pela mão da organização Estado Islâmico do Sahel. Neste ano, também morreram 37 pessoas no Paquistão, 10 na Somália, 105 no Níger, 78 na Síria, 43 na República Democrática do Congo e duas no Reino Unido.
O último caso foi similar ao da Austrália: em 2 de outubro, Jihad Al-Shamie, que também declarou lealdade ao Estado Islâmico, atacou a Sinagoga da Congregação Hebraica de Heaton Park, em Manchester (Inglaterra). Al-Shamie foi morto pela polícia.
Islã está relacionado a metade de todas as mortes em ataques terroristas desde 2001
Quando nos distanciamos de casos individuais como o de Matilda e entramos nas estatísticas, o coração cede lugar ao cérebro. Algo se perde, pois os números não nos motivam tanto quanto as histórias reais de seres humanos vitimizados. Mas algo também se ganha, que é uma análise do tamanho exato do problema — e ele não é pequeno.
Para essa mensuração, tomei a planilha de mais de 200 mil linhas da Base de Dados Global do Terrorismo (GTD), mantida pelo Consórcio Nacional do Estudo do Terrorismo e Respostas ao Terrorismo (START), sediado na Universidade de Maryland, EUA.
Interroguei esses dados da seguinte forma: quantos dos 209.706 ataques terroristas coletados têm algo a ver com o islã? Para isso, filtrei cada caso pela descrição das motivações e pelo nome dos grupos perpetradores por termos como “islã”, “islâmico”, “Hamas”, “Hezbollah”, “Qaeda”, “Talibã”, entre outros.
Os dados revelam que, no meio século entre 1970 e 2020, o islamismo teve algo a ver com 17,3% dos ataques terroristas no mundo todo. Desde 2001, contudo, essa participação subiu para quase um quarto (24,5%).


Se julgarmos os ataques pelo potencial de letalidade, contudo, a participação do islã aumenta: tem relação com 36,8% das mortes causadas pelos ataques terroristas no período completo (479 mil mortes ao todo, 173 mil relacionadas ao islã). Desde 2001, mais da metade das mortes tem algo a ver com muçulmanos: são 50,4%. Mais da metade.


Uso esse vocabulário de “ter algo a ver com”, “estar relacionado” ou “participação” porque, como dito, meu filtro trata da ocorrência daqueles termos, então nem todo caso será exatamente de motivação terrorista dentro da doutrina islâmica. Serve como um indicativo, não necessariamente uma prova de relação causal entre os terroristas serem muçulmanos e os ataques e vítimas.
Nos casos de Manchester e Sydney, contudo, a motivação é claríssima.
Islã nada tem a ver com islamismo?
No Reino Unido e na Austrália, viram-se desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 marchas enormes contra Israel e, às vezes, claramente contra judeus em geral. Cedo após o ataque, um grupo se manifestando na Austrália pareceu ter dito “gas the jews” (“matem os judeus com gás”), em referência explícita aos métodos nazistas.
Os dois governos têm reagido dobrando a aposta na ideia estimulada especialmente pela esquerda, mas não só por ela, de que os ataques acontecem porque o “discurso de ódio” não foi criminalizado o suficiente. O Reino Unido chegou ao ponto de estar estudando codificar em lei o termo frequentemente desonesto “islamofobia”, que mistura intolerância contra raça, etnia ou origem com críticas a uma religião que deveriam ser livres em qualquer nação civilizada sem leis de blasfêmia.
Outro debate previsível foi entre aqueles que acham que a fé islâmica como um todo não tem culpa nenhuma pelos ataques e aqueles que exageram essa culpa e subestimam a diversidade de pensamento interna à doutrina. Os políticos ensaiam uma distinção: “islã” seria a religião, “islamismo” seria a doutrina política que motiva o terrorismo (em português não funciona bem, já que sempre usamos como sinônimos).
No ataque da praia de Bondi, emergiu um claro herói, Ahmed al Ahmed, vendedor de frutas que correu na direção de um dos terroristas, pulou em seu pescoço e, após uma disputa de força, arrancou a arma do criminoso, apontando-a contra ele. Ahmed, que com certeza salvou muitas vidas com sua bravura e sobreviveu a tiros, também é muçulmano.
O que o caso prova? Espero que, para todos, prove em primeiro lugar que há pessoas boas em todas as fés. Porém, não parece provar a tese de um dos lados do debate, pois não está claro que Ahmed soubesse por que o ataque estava acontecendo. Neste caso, ele agiu por decência básica, humanidade fundamental.
A paciência das populações alvo dos ataques terroristas no Ocidente está se esgotando. No Reino Unido, lidera nas pesquisas para as próximas eleições o partido Reform, chefiado por Nigel Farage, um dos líderes responsáveis pelo Brexit. A mensagem principal do partido é o controle da imigração, além de uma retaliação às loucuras woke dos últimos anos.
“Estou farta de ver judeus com medo neste país”, escreveu dois dias após o ataque em Sydney a colunista britânica Allison Pearson, no jornal The Telegraph. “Estou farta da política do apaziguamento com relação ao islamismo, em geral. Estou farta do tratamento com luvas de pelica de uma minoria sensível que deixa as pessoas ansiosas. Estou farta deles rezando nas nossas ruas (que outra religião faz isso?), desfrutando do poder que eles têm sobre uma classe política que ainda se agarra ao mito do multiculturalismo enquanto ele se desfaz. Estou farta de ver feiras de Natal sendo canceladas por razões de ‘segurança’ (a fonte do perigo misterioso nunca é chamada pelo nome)”.
Claramente, Pearson está falando dos imigrantes muçulmanos no Reino Unido e até insinuando que seu direito de praticar sua religião em público seja repensado.
A ensaísta inglesa Helen Pluckrose, famosa por seu best-seller contra o identitarismo “Teorias Cínicas” (Avis Rara, 2021), é mais sóbria que Pearson. “Há, de fato, uma diferença entre interpretações literalistas e fundamentalistas de ideologias e aquelas interpretações que são mais moderadas, benignas, vagas e fofas. E a psicologia humana de fato varia ampla e individualmente no que diz respeito a qual direção algum indivíduo tem maior probabilidade de seguir”, escreveu em seu Substack.
Mas Pluckrose não acha que o islã pode ser completamente absolvido pelo que é feito em seu nome. As ressalvas acima “são insatisfatórias”, disse ela, ainda que verdadeiras. “Permanece o fato de que, se o conteúdo de uma ideologia é tal que, quando seus princípios fundacionais são levados ao pé da letra por alguém com uma personalidade zelosa e autoritária, acontece derramamento de sangue, perseguição, opressão e censura, a ideologia é o problema”.
As tentativas de tapar o sol com a peneira estão por toda parte. Um exemplo que descobri: a tradução de Corão de um professor da USP, por exemplo, colocou o eufemismo “batei-lhes acima dos pescoços” onde outras traduções colocaram “corte suas cabeças”.
Numa coluna para a revista liberal Quillette, que é australiana, o australiano judeu Jack Pinczewski, que já trabalhou para um primeiro-ministro no país, afirmou que “Bondi não foi uma surpresa”.
“Foi um choque, mas não uma surpresa”, escreveu Pinczewski, que mora em Bondi, perto da praia onde aconteceu o massacre. Muitos dos judeus locais com quem ele conversou sentem que o caso “era inevitável”, pois desde o ataque do 7 de Outubro “a comunidade judaica da Austrália tem bebido de uma mangueira de incêndio de antissemitismo. Ocorrências diárias de ódio, uma maré inexorável de maldade que sentimos subindo ao nosso redor”.
É realmente de deixar qualquer um perplexo: o único Estado judeu (embora não excludente de não-judeus) do mundo sofre um ataque terrorista, e a reação de muitos no mundo, especialmente a esquerda e especialmente as comunidades muçulmanas, é se inflamar contra a vítima? Denunciar crimes de guerra em Gaza é uma coisa, mas essa reação rápida é outra. Em Londres, o primeiro pedido de autorização de protesto anti-Israel às autoridades aconteceu horas após o ataque. Antissemitismo é diferente de antissionismo, mas há aspectos dessa reação que desafiam a distinção.
Autoridades australianas investigaram um dos terroristas e concluíram que não era uma ameaça
As autoridades australianas conheciam Naveed Akram desde que ele era um adolescente pregando a palavra do Corão nas ruas. Aos 18 anos, ele trabalhou como servente de pedreiro, seu único emprego desde então, no qual era conhecido por ser muito trabalhador, por não tirar folgas e por se isolar. Na época, ele foi investigado pela Organização Australiana de Segurança e Inteligência (Asio). A investigação durou seis meses, a partir de outubro de 2019.
“A conclusão foi que não havia indicação de qualquer ameaça presente ou ameaça de ele se engajar em violência”, disse Albanese sobre a única investigação sobre o rapaz radicalizado. Em 2023, seu pai Sajid, também terrorista, ganhou autorização para posse de armas de fogo.
Os dois terroristas passaram o mês de novembro nas Filipinas. Seu destino era a cidade de Davao, que fica perto de uma área conhecida no país por ser uma fábrica de terroristas.
Com essas informações, é possível imaginar diferentes linhas de investigação que as autoridades da Austrália poderiam ter seguido para evitar o ataque. Em muitas delas, com certeza a polícia seria acusada de “islamofobia” e “ódio”. As vítimas, por sua vez, já não podem odiar mais nada. Só sobrou Naveed Akram, um dos assassinos, para continuar odiando, dessa vez publicamente, as pessoas, o país e a cultura que o acolheram.
