Na semana passada, entrevistado durante um voo para o Líbano, o Papa Leão XIV disse que um dos propósitos de sua viagem era “chamar a atenção do mundo para a possibilidade de que o diálogo e a amizade entre muçulmanos e cristãos”.
O pontífice acrescentou que “uma das grandes lições que o Líbano pode dar ao mundo é precisamente mostrar um lugar em que o islã e o cristianismo estão ambos presentes e são respeitados; há uma possibilidade de viver juntos, de ser amigos”.
“As conversas que tive com muçulmanos na Turquia e no Líbano foram centradas no assunto da paz, do respeito por pessoas de religiões diferentes. Sei que não foi de fato sempre o caso, sei que na Europa muitas vezes há medos presentes, mas muitas vezes gerados por pessoas contra a imigração, que querem manter longe pessoas de outro país, de outra religião, de outra raça”, disse o papa.
O líder do catolicismo fez as visitas aos dois países para marcar o aniversário de 1.700 anos do Concílio de Niceia, que resolveu diferenças doutrinárias na Igreja. A Bíblia diz que Jesus visitou duas cidades do atual Líbano: Tiro e Sidônia.
O tom diplomático de Leão XIV, como líder religioso e chefe de Estado, é compreensível. Pontífices anteriores disseram coisas similares: João Paulo II afirmou, em 1989, que “O Líbano é mais que um país, é uma mensagem de liberdade e um exemplo de pluralismo para o oriente e o Ocidente”. Mas usar o Líbano como exemplo de sucesso de diálogo entre religiões é uma escolha no mínimo arriscada, como veremos.
Queda da população cristã libanesa
O último censo oficial do Líbano aconteceu em 1932. Na época, foram contabilizados 51,2% de cristãos. Os cristãos maronitas eram os mais numerosos, representando 28,8% da população. Os muçulmanos, divididos entre sunitas, xiitas e drusos, eram 48,8%.
Em 1990, os cristãos caíram para 26,4% dos libaneses, enquanto os muçulmanos subiram para 56,9%, segundo levantamento do Instituto de Consultoria Reach em Beirute.
No terceiro milênio, a tendência de queda da população cristã, embora com flutuações, continuou. Em 2020, a população libanesa se dividia em 27,9% de cristãos e 67,8% de muçulmanos, de acordo com o Pew Research Center.
Considerando outros levantamentos, como o feito pelo Departamento de Estado dos EUA e outro feito pela CIA, é possível afirmar com segurança que os cristãos caíram da metade para menos de um terço da população libanesa em nove décadas.
Por que a maioria cristã libanesa foi transformada em minoria?
Parte da razão da redução do número de cristãos no Líbano é a mais alta fecundidade dos muçulmanos. Mas os outros motivos são bem conhecidos: perseguição, guerra e discriminação, geralmente inflamadas pelo jihadismo.
A Constituição do Líbano em vigor desde 1926, herdada do mandato da França, reconhece 18 grupos religiosos como iguais, entre eles diferentes grupos cristãos e muçulmanos. Essa base legal levou as comunidades de fé a desenvolverem suas próprias redes de escolas, organizações humanitárias, hospitais e mídia. O lema “separados, mas iguais” utilizado no Sul racialmente segregado dos Estados Unidos até os anos 1960 se aproxima dessa organização social.
Agora que os maronitas se tornaram uma minoria, o que pode acontecer é que, caso a base constitucional caia, voltem a ser tratados como foram durante o Império Otomano: como um dhimmi (“pessoa protegida” em árabe), ou seja, uma minoria em um regime de maioria muçulmana que é tolerada desde que pague um imposto religioso especial (jizya) e se prostre perante a supremacia islâmica.
Essas minorias são excluídas do poder político e militar e são tratadas com normas assimétricas a respeito do casamento que favorecem a islamização paulatina da sociedade. Tudo isso é prescrito pela sharia, a lei religiosa islâmica, e pelo Corão.
Este é o temor expresso por diferentes acadêmicos em um livro publicado em 1998 pela editora da Universidade de Oxford, “Comunidades cristãs no Oriente Médio árabe” (trad. livre).
Em seu capítulo para o volume, o sociólogo e demógrafo francês Philippe Fargues informa que no Oriente Próximo (Líbano, Síria, Jordânia e Israel/Palestina) os cristãos atingiram um ápice populacional de 26,4% em 1914. No Líbano, eram quase 60%. Como já vimos, a proporção só caiu desde então.
Bernard Sabella, sociólogo e católico palestino, contribuiu com outra estatística: os árabes cristãos tinham o dobro da taxa de emigração da população em geral do Líbano, principalmente por razões econômicas e políticas.
Se os cristãos compararem a ascensão contemporânea do jihadismo com seu passado de dhimmi no Líbano, contudo, o Império Otomano pode deixar saudades, segundo a cientista política francesa Elizabeth Picard, que contribuiu para o volume. Na época, ela já avisava que o Hezbollah, hoje amplamente reconhecido como grupo terrorista apoiado pela teocracia do Irã, ameaçava impor normas legais e culturais xiitas sobre os cristãos e outras minorias libanesas.
O episódio mais traumático no Líbano no último meio século foi a guerra civil entre 1975 e 1990, que deixou cerca de 150 mil mortos. Em seu capítulo para o livro de Oxford, o historiador econômico libanês Boutros Labaki contabilizou que, das 800 mil pessoas desalojadas pelo conflito, 670 mil (84%) eram cristãs.
Essas pessoas foram expulsas de grandes áreas da parte ocidental de Beirute, além de outras regiões nos subúrbios do sul da capital e do país. As escolas cristãs foram afetadas de forma desproporcional: o número delas caiu pela metade; as particulares caíram para apenas 16% de seu número anterior; e a infraestrutura educacional cristã no Líbano sofreu um grande baque.
No período após o início da guerra civil, segundo Labaki, muitos cristãos desalojados e empobrecidos venderam em massa seus pedaços de terra para compradores muçulmanos, especialmente nas áreas férteis do sul do Líbano e no Vale do Beca, 30 km a leste de Beirute.
Não se está dizendo, aqui, que os cristãos são anjos e os muçulmanos o contrário de anjos. Os conflitos internos do Líbano incluem aqueles entre diferentes grupos cristãos. No Pacto Nacional de 1943, os maronitas ganharam uma hegemonia e formaram uma elite que usou o poder para formar um Estado clientelista. Isso certamente não é receita para harmonia.
O Acordo de Taif de 1989 foi outra oportunidade perdida: foi abandonado o sistema triconfessional em que o presidente precisava ser cristão maronita, o primeiro-ministro sunita e o presidente do parlamento xiita, mas a política sectária foi aprofundada, em vez de se criar um Estado neutro. É pela barganha sectária que os cristãos libaneses mantêm o país como um oásis imperfeito cercado de lugares em que seus colegas de fé foram ainda mais reduzidos em número.
Nos últimos anos, progressistas ocidentais como Sadiq Khan, prefeito de Londres, têm dito que “a diversidade é a nossa força”. Como mostra o exemplo do Líbano, ela também pode ser uma fraqueza. Tudo depende de como ela é formada e mantida. “Separados, mas iguais”, como mostra a experiência americana, não funciona no longo prazo.
O sumiço dos cristãos na região inteira
Se o que o Papa Leão XIV quer dizer com seu elogio ao Líbano é que o país representa uma esperança melhor para os cristãos do que outros lugares da região, ele tem razão.
Em 2019, o então ministro das Relações Exteriores britânico, Jeremy Hunt, produziu um relatório sobre a perseguição aos cristãos no Oriente Médio.
“A verdade inconveniente é que a esmagadora maioria (80%) dos perseguidos por sua crença religiosa são cristãos”, afirmou Hunt, que é anglicano.
O relatório mostrou que, no começo do século XX, os cristãos eram 20% da população do Oriente Médio e do norte da África. Em 2019, caíram para menos de 4%, cerca de 15 milhões de pessoas.
Portanto, comparativamente aos outros países da região, o Líbano se sai melhor. Contudo, se Líbano e Turquia (que é pior ainda para cristãos) são os melhores exemplos de coexistência religiosa que o papa pode citar por lá, o mundo está mal.
