Totalitarismo woke: suíço é preso por divulgar fato científico sobre diferenças de sexo no esqueleto - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 04 de julho de 2026
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Totalitarismo woke: suíço é preso por divulgar fato científico sobre diferenças de sexo no esqueleto

Emanuel Brünisholz trabalhando no conserto de um instrumento de sopro. Foto: Reprodução/Redes sociais
Emanuel Brünisholz trabalhando no conserto de um instrumento de sopro. Foto: Reprodução/Redes sociais

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Emanuel Brünisholz, um cidadão suíço que conserta profissionalmente instrumentos de sopro, passará dez dias na prisão este mês por causa de uma postagem que fez há três anos no Facebook.

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Em resposta a uma publicação do parlamentar Andreas Glarner, Brünisholz comentou: “Se você desenterrar pessoas LGBTQI depois de 200 anos, você só encontrará homens e mulheres, com base em seus esqueletos. Todo o resto é doença mental promovida pela cartilha escolar.”

Em agosto de 2023, quase um ano após o comentário, o suíço recebeu uma visita da polícia da cidade de Burgdorf (16 mil habitantes). Os policiais queriam saber qual foi a “intenção” dele com o comentário.

Depois, Brünisholz recebeu uma carta de um procurador informando-o de que ele estava indiciado pelo crime de “discurso de ódio” contra “orientação sexual”, então recém-adicionada ao Código Penal suíço. O reparador de trompetes foi condenado a pagar uma multa de 500 francos suíços.

Ele apelou da decisão, mas perdeu, e teve adicionados à multa mais 600 francos em custos processuais. Um juiz alegou que todas as letras da sigla citada, LGBTQI, são “orientações sexuais”, o que é falso. As letras TQI (transgênero, queer e intersexual) são consideradas “identidades de gênero”, na leitura comum e frequentemente influenciada pela ideologia identitária.

Brünisholz recusou-se a pagar a multa, preferindo ir preso.

Avaliando o comentário de Brünisholz

Com um pouco de generosidade interpretativa (que devemos estender a qualquer um, se queremos para nós), o suíço não estava falando de toda a sigla. Em depoimento nos autos, ele próprio disse que não sabia ao certo o que significa “LGBTQI”.

Emanuel Brünisholz estava ridicularizando a ideia de que um homem possa se tornar mulher ou vice-versa, um dos dogmas mais difundidos do identitarismo aplicado às minorias sexuais.

Por isso o apelo a algo concreto — o esqueleto e suas diferenças de sexo — e ao distanciamento histórico que, no raciocínio dele, tornaria claro o lado ridículo de ideias de alguns ativistas dos nossos tempos.

A concretude, aliás, é inegável. Com uma pequena área triangular na ponta do fêmur (o osso da coxa), é possível adivinhar o sexo de uma pessoa com 86% de precisão, como determinou um estudo de 2005.

A previsão é ainda mais certeira se utilizarmos a pélvis (bacia). Um estudo de 2022 mostrou que um antropólogo físico experiente é capaz de determinar o sexo de um esqueleto humano olhando a pélvis com até 95% de precisão. Com o auxílio de estatística e computadores, mesmo ossos fragmentados da bacia dão uma precisão de 95,35%.

Em outro estudo de 2005, com uma amostra de 262 indivíduos da Albânia, um antropólogo experiente teve 100% de acerto dos sexos com base na pélvis e no crânio.

O que esses fatos científicos mostram é que aqueles cientistas e divulgadores de ciência que, por causa da influência da febre identitária nos últimos anos, se dedicaram a relativizar as diferenças físicas entre os sexos, ou a tentar inflar o número de intersexos (pessoas com características ambíguas), no mínimo exageraram.

Se você já ouviu por aí que 2% das pessoas são intersexos, isso já foi exaustivamente refutado. O número real é por volta de um a cada 2.000 nascimentos. Ainda que o esqueleto dos intersexos fosse ambíguo quanto ao sexo (o que não é uma garantia), a raridade da condição explicaria a alta precisão dos estudos mencionados acima, com centenas de esqueletos.

Em suma, o suíço estava certo sobre o esqueleto não refletir necessariamente a identidade preferida pelos “TQI”.

E a parte sobre “doença mental”?

Aqui, é importante saber de alguns detalhes sobre como o identitarismo desestabilizou a própria identidade trans. Se antes trans significava “transexual” e tinha como pré-requisito o fato e o diagnóstico do que os psiquiatras americanos chamam de “disforia de gênero” (e a Organização Mundial da Saúde chama de “incongruência de gênero”), agora as coisas mudaram.

Mudaram tanto que, se uma pessoa transexual insiste que sofrer de disforia e ver na transição um alívio para esse transtorno psiquiátrico é um pré-requisito, os ativistas identitários a xingam de “transmed”, ou seja, “transmedicalizadora”, um rótulo de quem já foi doutrinado a rejeitar a ciência médica como um todo e rotulá-la como perseguidora dos trans.

Sendo “transtorno psiquiátrico” só um jeito acadêmico de dizer “doença mental” sem estigma, então Brünisholz teria razão em parte, e, ironicamente, os transexuais que concordariam com ele seriam os menos doutrinados na ideologia identitária.

O estigma, aliás, é mais percebido que real. Já fui diagnosticado um dia com depressão. Isso quer dizer que tive uma doença mental, não há problema nenhum nisso. Como sempre, a ofensa por meras palavras é uma dança que se dança a dois. Se uma parte se recusa, ela não existe.

Se o movimento identitário estigmatizou até os transexuais que se declaram tais por causa de um diagnóstico psiquiátrico de disforia, isso significa que há pessoas se declarando “trans” que não cumprem os critérios desse diagnóstico. Como trato no meu livro, é o caso de muitas mulheres jovens que participam de um “contágio social” de autodeclaração trans.

Onde Brünisholz erra é em um nível de detalhe de análise muito distante de sua rotina de consertar oboés. Neste caso, ele não tinha obrigação de saber. O caso é que o ativismo quis incluir queer dentro de trans. Queer, antes uma palavra pejorativa para gays em inglês e, antes disso, um dos vocábulos para “esquisito”, foi apropriada na onda identitária por motivos completamente ideológicos. Não há em queer qualquer âncora objetiva, seja ela uma disforia ou qualquer outra. Assim, é a parte sem doença mental.

A autodeclaração queer significa apenas que a pessoa está comprometida ideologicamente com minimizar diferenças de sexo, especialmente em si própria, alegando ser uma exceção a um padrão biológico que se desenvolve há um bilhão de anos. Isso é ainda mais explícito na autodeclaração “não binária”.

Já a categoria intersexo, que vem de uma rejeição política à bela palavra “hermafrodita”, antes do identitarismo eram pessoas com problemas de natureza biológica real. Algumas nasciam com uma genitália ambígua, que seus pais e médicos decidiam modificar cirurgicamente para se parecer com um pênis ou vagina. O risco disso é que às vezes essa decisão está em desconformidade com a preferência futura da criança submetida à cirurgia.

Com a influência do identitarismo, contudo, os intersexos passaram a ser incentivados a se autodeclararem assim, a tratarem sua condição médica como uma parte importante de quem eles são. Antes, eram apenas homens ou mulheres com raridades de desenvolvimento.

Como fica claro, fez muito mal ao entendimento das minorias sexuais a confusão causada e estimulada pelo identitarismo desde o começo dos anos 2010. No meio de tanto fervor moral de um lado e de outro, a primeira vítima é a curiosidade — até sobre si mesmo.

Carta pública do suíço preso por blasfemar contra o identitarismo

Em carta pública divulgada pelo comediante britânico Graham Linehan — ele próprio já detido em Londres por causa de tweets que as autoridades consideraram ofensivos a pessoas trans — Emanuel Brünisholz comentou sua situação.

“Escolhi trocar uma multa por tempo atrás das grades”, disse o suíço. “Estou preparado para ir para a cadeia, se é isso o que é necessário para expor o absurdo e o autoritarismo da ideologia trans, que agora se enraizou na Suíça”.

“Pretendo enfrentar a prisão com bom humor. Não me deixarei dobrar ou ruir perante aqueles que querem me silenciar através da pressão ou intimidação. Essa, afinal, é sua meta: cansar-me até que eu fique quieto. Não tenho intenção nenhuma de obedecer.”

“O movimento LGBTQ+ se comporta como uma seita de fanáticos. Tentam me rotular como homofóbico ou me calar. Não sou nada disso. O que faço da vida é consertar instrumentos de sopro, e venho de um lar de esquerda e tolerante. O que me incomoda nesse movimento é observar os ativistas se aproveitarem de pessoas LGB comuns para fins políticos que me parecem um disparate perigoso. Essas táticas começaram a lançar uma longa sombra sobre a Suíça e a Europa, como um tipo de ditadura woke.”

Podem rotulá-lo como quiserem. Só não vai colar a alegação de que Emanuel Brünisholz é covarde. Covardia é a atitude de quem se aproveita do monopólio da força do Estado para calar bocas para fins políticos.

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