A hipocrisia do CEO da Nvidia - Claudio Dantas
Brasília, Terça, 07 de julho de 2026
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A hipocrisia do CEO da Nvidia

Jensen Huang, CEO da Nvidia, e uigures internos de campo de reeducação. Foto: India Press Information Bureau/Wikimedia Commons e Xinjiang Juridical Administration/WeChat.
Jensen Huang, CEO da Nvidia, e uigures internos de campo de reeducação. Foto: India Press Information Bureau/Wikimedia Commons e Xinjiang Juridical Administration/WeChat.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Jensen Huang, diretor executivo da Nvidia, fabricante de chips de computador e uma das maiores beneficiárias da revolução da Inteligência Artificial, disse na semana passada que é uma “marca de vergonha” que agentes políticos nos Estados Unidos digam que são linha-dura contra a China.

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“Há uma expressão, e não a ouvi até alguns anos atrás: ‘linhas-duras contra a China’ [China hawks]. Aparentemente, se você é linha-dura contra a China, pode usar esse rótulo com orgulho. Quase como uma medalha de honra. É uma marca de vergonha. Não há dúvida que é uma marca de vergonha”, disse Huang ao podcast BG², apresentando por empresários de tecnologia.

Com 62 anos, o CEO da Nvidia é a nona pessoa mais rica do mundo, com fortuna estimada em US$ 150 bilhões, segundo a revista Forbes. Ele nasceu em Taiwan — ilha que a ditadura da China continental sonha em conquistar — e foi para os Estados Unidos ainda criança. Huang fundou a Nvidia em 1993 e preside a companhia desde então.

A Nvidia já forneceu tecnologia para aparato repressivo da China

No início de setembro, a agência Associated Press publicou uma reportagem investigativa especial sobre um assunto já notório: a vigilância tecnológica que a ditadura de Xi Jinping aplica contra cidadãos declarados inimigos do Estado.

“Por toda a China, dezenas de milhares de pessoas rotuladas como desordeiras ficam presas numa gaiola digital, impedidas de deixar suas províncias e às vezes até suas casas pelo maior aparato de vigilância digital do mundo”, diz a reportagem, assinada por Dake Kang e Yael Grauer.

“A maior parte dessa tecnologia veio de empresas de um país que há muito tempo afirma apoiar as liberdades no mundo todo: os Estados Unidos.”

Empresas americanas em grande medida projetaram e construíram o aparato tecnológico que a China usa contra os próprios chineses, afirmam os autores, vendendo bilhões de dólares em dispositivos para a polícia do regime, mesmo diante de repetidos alertas do Congresso americano e da imprensa.

O pior caso é o da província de Xinjiang, onde a minoria étnica uigur sofreu sob uma campanha de prisão em massa.

As estatais chinesas de vigilância Watrix e GEOAI usaram chips da Nvidia para treinar drones de patrulha com inteligência artificial para que identificassem pessoas por seu modo de caminhar. A própria Nvidia publicou essa informação em sua conta no aplicativo chinês WeChat em 2022. Em resposta ao contato da reportagem da AP, a Nvidia disse que encerrou essa parceria.

Os chips de última geração produzidos pela empresa e usados em IA não podem ser exportados para a China, por decisão do governo americano. Chips inferiores, contudo, podem ser exportados e são parte crítica dos sistemas de policiamento na ditadura controlada pelo Partido Comunista Chinês.

A Nvidia e a Intel fizeram parceria com as três maiores empresas de vigilância chinesas para  incorporar IA a câmeras distribuídas por todo o território chinês, incluindo Xinjiang e o Tibete.

Em outra postagem encontrada pela AP, por volta de 2013, a Nvidia declarou que colaborava com um instituto de pesquisa criminal chinês para produzir tecnologia avançada de vigilância.

Outra empresa ocidental envolvida é a IBM, que trabalhou com a Huadi, empresa que presta serviços para as forças armadas da China, para projetar o sistema de policiamento conhecido como “Escudo de Ouro”, usado para censurar a internet e perseguir supostos terroristas, a seita Falun Gong e camponeses acusados de serem desordeiros. As provas estão em milhares de páginas de um projeto secreto do regime ao qual a AP teve acesso.

Uma família de camponeses sob repressão

Uma das vítimas da vigilância da ditadura é a família Yang, que teve um sítio de 1,5 acres tomado pelo regime de Xi Jinping no leste chinês. Por tentar reclamar do confisco em Pequim, a família está incapacitada de comprar passagens de trem, fazer reservas em hotéis, fazer compras, mandar mensagens de texto ou fazer telefonemas — um destino não incomum para quem cai na classificação do “crédito social” do regime. Mais de uma dúzia de câmeras foram instaladas em sua casa.

A família tentou ir a Pequim 20 vezes nos últimos anos, mas homens mascarados aparecem e os capturam antes que possam partir. A esposa do patriarca, Yang Guoliang, foi presa com sua filha mais nova. Elas serão julgadas por embaraçar ou obstruir o trabalho do Estado chinês. Se condenadas, poderão receber penas de até 10 anos de prisão.

Outras empresas ocidentais que ajudam os comunistas

Entre outras empresas ocidentais que ajudaram o regime ditatorial, segundo a AP, estão:

  • Dell, montadora de computadores, e sua subsidiária VMware. Venderam para as autoridades chinesas serviços de nuvem e armazenamento de dados no Tibete e em Xinjiang, “até mesmo em 2022”, após mais sanções aplicadas pelo governo americano.
  • Cisco, empresa de redes, gerenciamento em nuvem e outros serviços. O setor de marketing da empresa usava vocabulário especialmente atraente para o Partido Comunista Chinês: “pessoas-chaves”, “aglomerações anormais”, programas com nomes como “Polícia da Internet”, “Olhos Afiados” e “Escudo de Ouro”.
  • Seagate, fabricante de hardware de armazenamento de dados, também ofereceu seus serviços para a polícia chinesa para ajudá-la a manter “pessoas-chaves” sob controle.
  • Oracle, famosa dona da linguagem de programação Java, vendeu para os chineses software usado pela polícia para perseguir uigures, tibetanos e dissidentes postos em listas negras. O programa avisava caso deixassem suas províncias.
  • HP, conhecida por vender impressoras, junto à Oracle vendeu tecnologia de comparação de impressões digitais para a polícia chinesa.

Há um grande corpo de denúncias acumuladas contra a China por reprimir alvos como os uigures, presos em massa, tendo famílias separadas e sendo submetidos a trabalhos forçados. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos acusou a China de “sérias violações aos direitos humanos” contra os uigures e outras minorias em 2022.

Em 2022, em resposta a preocupações levantadas pela organização não-governamental Business & Human Rights Resource Centre (“Centro de Recursos sobre Empresas e Direitos Humanos”), a Nvidia declarou que “está comprometida em assegurar que sua cadeia de suprimentos esteja livre de qualquer forma de trabalho forçado e em respeitar a todas as exigências legais e restrições de importação em nossos negócios”.

 “Linha-dura” contra a China estaria perdendo espaço para acordos de Trump

O presidente americano Donald Trump tem articulado um modo de salvar o aplicativo chinês TikTok de ser bloqueado nos EUA. Após uma decisão do Congresso de tirar o aplicativo das mãos do regime chinês para que opere no país, o principal cotado para controlar o TikTok é Larry Ellison, fundador e ex-CEO da Oracle, segunda pessoa mais rica do mundo.

Sob a nova direção, o TikTok dos EUA deve passar a ter 80% de acionistas locais, com o resto das ações nas mãos de investidores chineses — o teto de 20% foi estabelecido pelo Congresso no ano passado.

Para que os usuários escapem do algoritmo de recomendação chinês, eles serão direcionados a um novo aplicativo de mesma marca, de acordo com o New York Post. A Oracle deve controlar os servidores.

O Diário do Povo, jornal de propaganda estatal chinês, comemorou o acordo com Trump: “é baseado nos princípios de respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação com ganho mútuo”.

Os chamados críticos “linha-dura” da China no Partido Republicano estariam preocupados com o acordo, segundo a agência Axios, mas devem evitar criticar Trump. Além da questão do TikTok, eles também estariam engolindo sapo a respeito de acordos do presidente na questão da venda de chips da Nvidia e da AMD para a China e para os Emirados Árabes.

“Em se tratando de China, este governo tem repetidamente se curvado, colocando exigências e lucros corporativos chineses acima da nossa segurança nacional”, reclamou a senadora democrata Elissa Slotkin.

Membros do governo Trump e funcionários da Nvidia disseram à Axios que é preferível que a China dependa de tecnologia americana em vez de impulsionar rivais de tecnologia locais como a empresa Huawei.

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