A violência política cometida pela esquerda superou a de direita e o terrorismo de esquerda está em alta. Quem faz o alerta, surpreendentemente, é uma revista de esquerda.
Fundada há 168 anos, a revista americana The Atlantic passou por diferentes donos, mas tem uma consistente preferência pela esquerda, no mínimo, desde 1964. Em 2016, recomendou aos leitores que votassem na democrata Hillary Clinton. Em 2019, pediu o impeachment de Donald Trump.
Foi nas suas páginas que, em 2020, apareceu a fofoca com fontes anônimas de que Trump teria chamado soldados americanos mortos de “perdedores”, o que Trump negou e chamou de “notícia falsa”. Sem surpresa, nas eleições de 2024 a Atlantic endossou Kamala Harris.
Ontem, reagindo à crise política desencadeada pelo assassinato do ativista Charlie Kirk, no dia 10 de setembro, a revista surpreendeu. Indo na contramão de outras publicações que insistiram que há simetria na promoção da violência entre a direita e a esquerda, como a revista britânica liberal The Economist, The Atlantic publicou o artigo “Terrorismo de esquerda está em alta”.
2025 é o ano de virada para violência da esquerda, diz o artigo
O texto é assinado por dois estudiosos da guerra e do terrorismo, Daniel Byman (professor da Universidade de Georgetown) e Riley McCabe, ambos afiliados ao Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank de Washington D.C. afiliado à universidade.
Byman e McCabe anunciam a publicação de um estudo de sua autoria para o CSIS que foi baseado na compilação de 750 atentados violentos ou planos de atentados nos Estados Unidos que ocorreram entre janeiro de 1994 e julho de 2025.
A pesquisa considerou somente ataques terroristas, definindo terrorismo como “ataques ou planos de um agente não estatal que tentam atingir um fim político e exercem uma influência psicológica sobre uma população ampla”.
“Descobrimos que o terrorismo de esquerda aumentou desde que o presidente Donald Trump ascendeu à proeminência política em 2016”, afirmaram os estudiosos. Além disso, o ano de 2025 “marca a primeira vez em mais de 30 anos que os ataques de esquerda superaram em número aqueles da extrema direita”.
Segundo os autores, o crescimento ainda não foi suficiente para atingir os níveis observados com a ascensão da “nova esquerda” nas décadas de 1960 e 1970. Na época, várias células terroristas de esquerda estavam em atividade, com causas diversas, como a causa racial.
No início da série histórica considerada por Byman e McCabe, a direita superava a esquerda em número de ataques por ampla margem. Eles contaram 144 atentados ou conspirações de direita e quatro de esquerda entre 1994 e 2000.
Com a virada do milênio, a diferença foi se estreitando, ainda com vantagem numérica da direita. Até que, em 2016, a ascensão de Trump e de seu movimento MAGA “parecem ter energizado o extremismo violento de esquerda”.
Os pesquisadores contaram 37 incidentes de violência da extrema esquerda entre 2016 e 2024. Em 2025, foram cinco atentados ou planos terroristas até 4 de julho (Dia da Independência dos EUA), em um padrão que culminou no assassinato de Charlie Kirk — cujo assassino os autores consideram que tinha motivações de esquerda, com base nas evidências preliminares.
Casos coletados pelos pesquisadores envolvem tentativas da extrema esquerda de prejudicar o funcionamento da Agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), por exemplo.
“Em muitos casos, categorizar a ideologia de um perpetrador é difícil”, admitem Byman e McCabe. Um dos fatores que ajudam a fazer o diagnóstico correto é “uma mudança grande na política”, que “pode fazer com que o lado derrotado se torne mais combativo”. Foi o caso com a reeleição de Trump.
Os dois pesquisadores observam que muito da intolerância consiste em superestimar o quanto o outro lado é intolerante. “A retórica exagerada que cruza as fronteiras partidárias ajuda a explicar por que tanto republicanos quanto democratas acreditam que mais de 40% do outro lado apoia o assassinato se servir a seus interesses políticos. Na realidade, menos de 4% dos americanos apoiam a violência sectária como a agressão ou o incêndio criminoso, menos ainda assassinato”.
Uma pesquisa recente do instituto YouGov, contudo, sugeriu que a violência política é considerada justificável quatro vezes mais entre os americanos de esquerda entre os 18 e os 44 anos, contra 7% entre os conservadores.
Byman e McCabe disseram que os ataques da direita são mais letais e fazem críticas a Trump, mas pensam que “ambos os lados precisam melhorar, como se viu em algumas celebrações de esquerda em torno de Luigi Mangione”, que matou o CEO de uma farmacêutica no ano passado.
Para eles, um modelo exemplar de comportamento foi exibido pelo governador de Utah, estado em que o assassinato de Kirk aconteceu. Spencer Cox, do Partido Republicano, denunciou os extremistas e chamou a tragédia de “um ataque contra todos nós”. Cox também foi elogiado pelo conselho dado ao público: “Discordem melhor”.
Empatia como motivação para a violência
A esquerda, em suas vertentes progressistas e identitárias que se inflamaram desde o surgimento do fenômeno Trump, tem pregado nesse período que uma solução para os problemas sociais é ter mais “empatia” para com grupos pré-selecionados como oprimidos (frequentemente com critérios históricos, sem muito compromisso com dados sobre a realidade contemporânea).
Essa exortação à empatia, contudo, é no mínimo ilusória e até perigosa, como alertou o psicólogo Paul Bloom, da Universidade de Yale, em texto publicado na revista The Atlantic há uma década. O texto, “O lado negro da empatia”, faz dez anos amanhã. Traduzi-o no mesmo ano de publicação; pode ser lido aqui.
“As pessoas mais empáticas” em um estudo “eram mais agressivas quando expostas ao sofrimento de estranhos”, explicou Bloom. O “ódio do bem” tem base científica.
E começa com pequenas intolerâncias: um famoso evento de palestras de intelectuais no Brasil tomou minha tradução do texto de Bloom e alterou “lado negro” para “lado sombrio” — presumindo, incorretamente, que “negro” neste caso se referia de alguma forma à pele negra, em vez de à falta de luz. Aparentemente, quanto mais “empatia” politicamente correta, menos cérebro.
