No vazamento sobre Bolsonaro distribuir proxalutamida, faltou perguntar: a droga funcionava? - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 27 de junho de 2026
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No vazamento sobre Bolsonaro distribuir proxalutamida, faltou perguntar: a droga funcionava?

Bolsonaro oferece proxalutamida para avestruz. Ilustração gerada por IA.
Bolsonaro oferece proxalutamida para avestruz. Ilustração gerada por IA.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Durante a pandemia de Covid-19, formou-se em um grupo político um consenso contra o “tratamento precoce” ou repropósito de drogas para tratar a doença. A opinião contra o uso dos medicamentos era política, mas ganhava um verniz de cientificidade.

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Hoje, em mais um vazamento seletivo de informações do celular de Jair Bolsonaro, o grupo está comemorando o que consideram uma revelação bombástica: que o ex-presidente, durante a pandemia, distribuiu com seu ajudante de ordens Mauro Cid a droga experimental proxalutamida, para tratar covid, violando as normas da Anvisa.

O grupo político contrário aos medicamentos populares da pandemia pode ser definido por suas posições antiliberdade e pró-tirania hipocondríaca (ou hipocondria tirânica). Eram aqueles que, apavorados com as lives do influenciador científico Átila Iamarino, queriam que o Estado cassasse os direitos individuais. “Autoritarismo necessário”, como colocou o próprio Iamarino em artigo para a Folha de S. Paulo.

Tanto pior para esse consenso, de natureza política e moral, que estava errado não só na seara ética, por autoritarismo, como também no campo dos fatos, por suas falsas certezas contra os medicamentos. Confira minhas reportagens sobre drogas como fluvoxamina, hidroxicloroquina, ivermectina e budesonida, além de suplementos sugeridos contra a doença, como a vitamina D.

O objetivo das minhas reportagens era mostrar que havia, ao contrário do que alegavam, evidências de alguma eficácia dessas drogas. Era criticar a falsa certeza da ineficácia, não a substituir pela falsa certeza de eficácia.

Em ciências empíricas, as conclusões quase sempre são tentativas, temporárias, baseadas nas evidências disponíveis. Além disso, a autoridade está primariamente nas evidências e nos métodos rigorosos com que são produzidas, mais que nos próprios cientistas, médicos ou na própria Anvisa. Deferência a autoridades humanas ou estatais é anátema para a pesquisa científica.

Na minha cobertura durante a pandemia, não tratei da proxalutamida, proposta como tratamento por um grupo de pesquisadores brasileiros que observaram sinais de que o vírus “gostava” de testosterona. A droga age contra o hormônio masculino. Minha cautela, talvez excessiva, foi por conta da demora da replicação dos resultados. Como veremos, a replicação foi feita.

Uso do vazamento para reafirmação das falsas certezas da pandemia

A reportagem do jornal Estadão apresenta indícios de que Jair Bolsonaro, Mauro Cid e Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, articularam uma distribuição informal de proxalutamida para algumas pessoas em 2021.

“Um da minha turma, que é irmão da esposa do meu irmão, ele tá com corona, intubado”, disse Cid. “Queria saber se eu podia mandar uma ‘proxa’ para ele tomar lá”.

“Mande a Proxalutamida”, respondeu Bolsonaro.

À parte as potenciais ilegalidades cometidas, a reportagem afirma que as recomendações dos três foram feitas “sem ter nenhuma comprovação científica”.

Comentando mensagem de Cid em que ele alegou que a proxalutamida “levanta defunto”, o jornal disse que “a informação não tinha nenhuma comprovação científica, já que o medicamento estava ainda sendo estudado”.

O Estadão também afirmou que a pesquisa com a droga era “irregular”.

Conversei com Flávio Cadegiani, endocrinologista e principal cientista responsável pelos primeiros estudos da proxalutamida como tratamento para covid.

Quando seus primeiros resultados foram pré-publicados em junho de 2021, a revista Science deu destaque à fala de um crítico no mês seguinte: a redução de 77% das mortes dos hospitalizados com covid era “boa demais para ser verdade”.

Mas o tempo, de certa forma, tem vingado a posição de Cadegiani, segundo estudos e documentos que ele apresenta. “A comprovação científica ficou clara através de diversas metanálises independentes, que são o padrão ouro da medicina baseada em evidências”, disse o médico ao Portal Claudio Dantas.

Cadegiani me mostrou o resultado de uma sindicância aberta contra ele pelas supostas irregularidades no estudo junto ao Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (CREMERS), com data de 18 de novembro de 2022. Também foram denunciados seus colaboradores Norberto Martins, Christiano Perin, Ricardo Zimerman e Igor Walwacz Júnior.

“Verifica-se que o estudo havia sim sido aprovado regularmente pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) em 19/01/2021”, concluiu a sindicância. “Não necessitando aprovação da Anvisa, por tratar-se de um estudo acadêmico e não um estudo regulatório para fins comerciais”.

A sindicância do CREMERS afirma que o estudo estava “de acordo com os princípios éticos e com a legislação vigente” e que “destacam-se os resultados extremamente animadores apresentados pela proxalutamida”. Portanto, serve de resposta tanto à alegação de irregularidade ética quanto à alegação de “falta de comprovação”, para os fins burocráticos.

Para os fins científicos, não é necessário ficar só com a palavra de Cadegiani, que aponta que foi vingado por duas metanálises diferentes. “Proxalutamida reduz a infecção com SARS-CoV-2 e a resposta inflamatória associada”, afirma já no título um artigo publicado em 17 de julho de 2023 na respeitada revista PNAS. O trabalho não tem participação de Cadegiani e seu grupo, é de autoria de cientistas chineses e da Universidade de Michigan, EUA.

Uma revisão de cientistas do Hospital da Província de Zhejiang, na China, publicada em março de 2024, afirma que a proxalutamida e três outras drogas “foram classificadas como as drogas mais eficazes” para tratar sintomas moderados de Covid-19.

Logo, o Estadão está errado ao afirmar que a aplicação da proxalutamida é destituída de “comprovação científica”. Eu evitaria o termo, que sugere uma certeza inabalável que não casa bem com a ciência empírica. É preferível dizer que há evidências favoráveis.

“As evidências para a proxalutamida são muito fortes”, afirmou em conversa comigo Daniel Victor Tausk, que faz pesquisa em matemática na Universidade de São Paulo. “Cadegiani fez estudos randomizados duplos-cegos e encontrou um efeito enorme”.

Nesse tipo de estudo, a droga e uma substância sem efeito são distribuídos ao acaso para grupos de pacientes, sem que os pacientes nem os pesquisadores saibam até o final da análise quem recebeu o quê. O protocolo evita a interferência de vieses.

Além disso, disse Tausk, os resultados foram replicados na região Sul do país. Muitas das conclusões ainda dependem da probidade do trabalho de Cadegiani, porém, “há evidências indiretas, como estudos feitos com drogas similares por outros grupos”. Além disso, Cadegiani “disponibilizou dados brutos dos estudos e não há indícios de fraude”.

“Era meio um ‘levanta defunto’, de fato”, acrescentou o especialista da USP. Uma questão complicadora, e é aqui que entram questionamentos a Bolsonaro e seu entorno, é que, enquanto hidroxicloroquina e ivermectina eram drogas seguras aprovadas para tratamento de outras doenças, a proxalutamida sempre foi um tratamento em fase experimental, não só para Covid, como para alguns tipos de câncer. Em outras palavras, não era um “repropósito” (ou um “off-label”), mas algo com mais elementos de inovação médica.

Para julgar a atitude do trio do antigo governo, contudo, consequências importam, e se a consequência da proxalutamida envolve eficácia contra a doença, isso deveria afetar a avaliação geral do acesso provavelmente irregular a algum estoque.

É possível que seja tudo uma miragem, a ciência é falível. Mas isso só se demonstra com mais ciência. Mas o regime preferiu outra rota. Cadegiani, que nega que tenha recomendado a prescrição fora do ambiente experimental, foi incluído em um inquérito e recebeu visita das autoridades cedo em casa. Nada acontece há três anos no processo, ele disse. A aparência é de tentativa de intimidação.

“Bolsonaro acreditava mesmo que a droga funcionava”, comentou Tausk, “e com razão”. O ex-presidente teimou em duvidar das tentativas da imprensa alinhada com o pânico e com o credencialismo vazio de difamar o estudo de Cadegiani.

Alguns “autoritários necessários” já se arrependeram

Com o fim da pandemia, o “consenso” contra os medicamentos em repropósito para Covid-19 se dissipou. Alguns críticos se declararam arrependidos.

Em abril de 2024, em sua coluna no jornal O Globo, o professor da USP Pablo Ortellado (de esquerda e envolvido em iniciativas como o “Monitor da USP”) afirmou que a oposição a Bolsonaro durante a pandemia “tomou a forma de uma negação automática”.

“Na ânsia de se contrapor às teses selvagens e absurdas dele sobre o coronavírus e a pandemia, deixamos de analisar ideias próximas às dele ou que poderiam ser identificadas com ele”, confessou Ortellado. “Isso nos levou a muitos erros na condução da pandemia — erros sobre os quais ainda não nos debruçamos”.

O que causou a epifania do colunista foi um artigo de jornal sobre um estudo de Oxford a respeito da eficácia da ivermectina. Cobertura feita na época pelo médico Olavo Amaral, um professor da UFRJ, no veículo Nexo. Se Ortellado tivesse lido fontes da imprensa conservadora e liberal, teria sido informado antes.

Mas o memorando não chegou a alguns que, tal qual o soldado japonês Hiroo Onoda, continuaram afirmando sua falsa certeza contra a eficácia dos medicamentos propostos contra a covid que caíssem nas graças dos conservadores e liberais.

Onoda ficou famoso por ter continuado lutando em nome do Japão nas Filipinas por 29 anos depois do fim da Segunda Guerra. Ele rejeitava panfletos avisando sobre o fim do conflito e a derrota do imperador Hirohito. Foi preciso a visita de seu muito idoso superior militar ao local para que ele fosse dispensado.

Quem vai visitar os últimos “autoritários necessários” e avisar a eles que o repropósito de medicamentos foi a coisa certa a se fazer e, guardadas as proporções, entregou casos de sucesso? E quem vai convencê-los, finalmente, de que o objetivo não era substituir as vacinas ou os antivirais aprovados pelo consórcio da “opinião correta”, mas suplementar uma abordagem com a outra?

Quem vai convencer os últimos teimosos de que eficácia ou ineficácia de medicamentos não depende da posição política (presumida) de quem os propõe?

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