Assisti na CNN um Luiz Felipe Pondé incomodado com o bolsonarismo. Segundo ele, o movimento “tem destruído a capacidade de se fazer uma crítica ao monopólio que o PT tem no país”. “Ele só atrapalha!”
O filósofo parece esperar um salvador, “seja à direita ou à esquerda”, que rompa “com esses dois caminhos representados pelo Lula e pelo Bolsonaro”. Ele acredita ser esse, aliás, o caminho para se “chegar a uma qualidade de liderança política menos deliquente”.
Não vi menção de Pondé a Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes ou Luís Roberto Barroso. Sua crítica ao Legislativo também parece genérica, ao não nominar Hugo Motta ou Davi Alcolumbre; nem Arthur Lira ou Rodrigo Pacheco.
A fala de Pondé se assemelha ao editorial do Estadão que, ao endossar a crítica de Tarcísio de Freitas de que o Brasil “não aguenta mais o Lula”; alega que também ninguém “aguenta mais Bolsonaro”.
Como se a polarização não fosse resultado de escolhas, institucionais e populares; e de processos históricos. Ou já esqueceram que a cúpula do Judiciário descondenou Lula, o reabilitou politicamente e recorreu até aos EUA para garantir sua vitória?
Que esse grupo não eleito é hoje a principal fonte de insegurança jurídica e gerador de crises políticas, econômicas e sociais?
De repente, o debate sobre eleição e Estado Democrático de Direito não é mais sobre respeitar a Constituição e as leis; mas uma questão de conforto estético. Ignorar as provas que condenaram Lula e as que absolvem Jair Bolsonaro não fortalece a democracia, mas a sabota.
Se há lideranças populares “mais adequadas”, capazes de arrastar multidões às ruas e às urnas, então que elas surjam e substituam outras naturalmente; pois tentar impor goela abaixo do eleitor uma “solução final” para a polarização é apenas fascismo.
Oferecer ao público a promessa de um país silencioso e pacificado é preguiça intelectual e canalhice; como se o povão não soubesse que, por baixo dos protocolos, nossas elites violentam a democracia, estripam seus cidadãos e esbulham a nação diariamente.
Se Lula foi por décadas apenas instrumento dessas elites, num consórcio com a burguesia sindical, Bolsonaro se tornou a expressão política do povo explorado, indignado e disposto a reagir com a mesma violência.
A democracia de Pondé e do Estadão é a do aniversário de Guiomar Mendes; não a das jornadas de junho de 2013.
