Pior da deterioração das relações entre Brasil e EUA ainda está por vir, e não tem a ver com o comércio
Por JH Fonseca*
É comum escutarmos integrantes da esquerda desmerecendo o comércio com os EUA, argumentando que o maior parceiro comercial do Brasil é a China e que tal país poderia nos socorrer. Essa afirmação é muito errada tanto no seu sentido direto quanto no indireto.
No sentido direto, não podemos redirecionar o que exportamos para os EUA para a China.
Ora, vendemos uma pauta com maior valor agregado para a América (aviões, aço, semimanufaturados, etc.), enquanto para China vendemos commodities. Não é preciso ser um economista para perceber a diferença entre os gráficos abaixo.
A China compra basicamente “comida” e minério do Brasil, enquanto os EUA compram coisas que geram empregos de alto valor agregado aqui.
Gráfico 1 e 2: principais produtos exportados pelo Brasil para EUA e China.

Alguém em sã consciência acha que seremos competitivos em vender aço e bens manufaturados para a China, que é a maior produtora mundial de ambos? Pelo contrário, o Brasil enfrenta uma situação cada vez mais complicada em sua relação comercial com os chineses.
As exportações brasileiras para a China tiveram a maior queda em dez anos. Para piorar, com dificuldade para acessar os mercados americanos e europeus, a China tem “empurrado” no Brasil um volume cada vez maior de produtos.
No sentido indireto, a ideia de que o Brasil pode contar com a China erra ao ignorar um elemento central nas contas externas do Brasil: não temos um problema comercial, quase nunca tivemos, mas sim de serviços e rendas.
Para quem não sabe, a balança comercial é só uma das contas que compõe as contas externas de um país. Abaixo um detalhamento completo:
Tabela 1: resumo do Balanço de Pagamentos de um país.

O Brasil é historicamente deficitário em suas transações correntes, por mais que venha sustentando um superávit comercial crescente nos últimos anos. Isso acontece devido aos déficits gigantescos na conta de “serviços” e na “renda primária”.
Como fechamos nosso balanço então? Com a “Conta Financeira” e, mais especificamente, com a entrada de investimentos, propositalmente em letra vermelha na tabela.
Em 2025, por exemplo, até maio o rombo em transações correntes estava em cerca de US$28 bilhões. Para nos salvar desse buraco, cerca de US$37 bilhões entraram no país na conta financeira, quase tudo oriundo de investimentos diretos (no exterior ou no país, IDE e IDP) e outros créditos (passivos).
Embora tenha uma participação relevante na balança comercial, a China não faz investimentos relevantes no Brasil. Na verdade, o país que mais investe aqui são os Estados Unidos da América, sem um segundo lugar relevante.
Gráfico 2: investimento externo direto no Brasil, principais países.

Lula está brincando com fogo. Os EUA são o país mais importante para ajudar a fechar nossas contas e são quem realmente ajudam o Brasil a se desenvolver. Chineses compram, simplificadamente, “comida” e minério do Brasil, mas são extremamente egoístas com seus investimentos.
Há uma pressão enorme da ditadura comunista em manter seus parques produtivos “em casa”. Contar com a China para salvar nossas transações correntes é um ato de negacionismo econômico puro. Não fizeram investimentos no passado, não fazem hoje e não há sinais de que farão no futuro.
O que pode acontecer se as provocações do governo Lula comprometerem o investimento direto dos americanos no país? Sobrarão os investimentos em carteira, os capitais de curto prazo, para salvar o buraco. É uma espécie de “capital motel”, dinheiro de qualidade péssima que vem para surfar juros altos e vai embora a qualquer momento.
A última vez que o Brasil dependeu desse tipo de recursos para fechar seu balanço de pagamentos foi entre 2010 e 2015. Os brasileiros sabem o que aconteceu nessa época, especialmente com o PIB, o Ibovespa e o dólar.
*João Henrique da Fonseca (JH Fonseca): economista e sócio fundador da Azul Wealth Management (AWM), com mais de R$1 bilhão sob gestão. Fez carreira no Itaú BBA, onde ingressou em 2013 e permaneceu até 2021. Atuou principalmente com operações estruturadas para estatais, governos e empresas do middle market.