Ex-ministro diz que problema não é econômico, mas político e solução passa por recuo do STF
Por Adolfo Sachsida*
Diante do tarifaço anunciado por Donald Trump, muitos governadores — com justa preocupação pelos impactos econômicos em seus estados — têm lançado programas de crédito ou subsídios para amparar empresas diretamente afetadas. À primeira vista, a estratégia parece sensata: proteger empregos e investimentos de um choque abrupto. No entanto, essa abordagem carrega um erro econômico fundamental.
A verdade é que esses pacotes de ajuda não eliminam o custo do tarifaço para a sociedade — apenas o redistribuem. O crédito ou subsídio concedido às empresas afetadas precisa ser financiado de alguma forma, geralmente por meio de recursos públicos que poderiam ser destinados a outras áreas.
Assim, o impacto econômico não desaparece: ele apenas muda de endereço. O setor produtivo diretamente atingido é amparado, enquanto o restante da sociedade arca com a conta, seja por meio de aumento de impostos, endividamento público ou redução de serviços essenciais.
Se tais medidas forem temporárias, voltadas para dar tempo às empresas se ajustarem ao novo cenário e buscarem novos mercados, ainda podem ser justificadas tecnicamente. Mas é preciso ter clareza: isso não resolve o problema estrutural nem reduz o custo agregado do tarifaço. Apenas suaviza, no curto prazo, os seus efeitos sobre determinados grupos.
É possível concordar ou não com os motivos alegados por Trump. O que importa é que ele deixou claro que a motivação para o tarifaço está relacionada à percepção de uma perseguição política em curso no Brasil — algo que ele vê como ameaça às bases democráticas do país. E essa percepção não é exclusiva do presidente americano: é compartilhada por uma parcela significativa da sociedade brasileira.
Diante disso, a solução real para o problema do tarifaço passa por medidas políticas internas, e não por viagens a Washington. O caminho mais eficaz está em Brasília — e exige coragem e liderança. Duas ações concretas podem reverter o quadro: 1) a aprovação, pelo Congresso Nacional, de uma anistia ampla, geral e irrestrita para os eventos de 8 de janeiro; e 2) o encerramento do chamado “inquérito do fim do mundo” pelo STF, que já se estende por mais de seis anos.
É hora de os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais liderarem uma frente ampla de pacificação nacional. Ao invés de medidas paliativas e localizadas, é preciso articulação política de alto nível. Que essa frente pressione Brasília — tanto o Executivo como o Legislativo e o Judiciário — em favor de uma solução duradoura. Aos senadores e deputados, o recado é claro: a resposta não está fora do país, está no próprio Congresso Nacional. Aos empresários, cabe pressionar seus representantes por um pacto de pacificação.
A grande pergunta que precisamos encarar é simples: o Brasil caminha rumo à pacificação ou à radicalização? O inquérito do fim do mundo fortalece ou enfraquece nossa democracia?
A resposta a essas questões define não apenas o futuro das relações comerciais com os Estados Unidos, mas também o destino institucional do país. É a hora dos estadistas aparecerem. De construir uma grande frente ampla em defesa da democracia e da reconciliação nacional.
Basta de inquéritos intermináveis. Basta de tratar a divergência como crime e a crítica como ameaça. O Brasil precisa de paz — e com ela virá, naturalmente, o fim do tarifaço americano.
- Adolfo Sachsida é ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica do governo de Jair Bolsonaro
