Zohran Mamdani: quem é o rapper comunista e muçulmano que poderá ser prefeito de Nova York - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 27 de junho de 2026
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Zohran Mamdani: quem é o rapper comunista e muçulmano que poderá ser prefeito de Nova York

Zohran Mamdani em seu clipe "Nani", há seis anos. Foto: Reprodução/YouTube
Zohran Mamdani em seu clipe "Nani", há seis anos. Foto: Reprodução/YouTube

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Zohran Mamdani, 33 anos, é o novo rosto da esquerda americana desde que ganhou as eleições primárias para prefeito de Nova York, em 24 de junho.

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Na descrição de seu perfil no X, ele já promete duas coisas “grátis”: passagens de ônibus e creches, além de congelamento de aluguéis. Em outras manifestações, ele prometeu abrir supermercados estatais e declarou que bilionários não deveriam existir. Ele alega ser um “socialista democrático”, termo adotado por outras figuras da política americana como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez.

A esquerda americana já trabalha para cobrir Mamdani com o manto purificador do identitarismo: “Ele é um socialista democrático [de grupo racial] sul-asiático e muçulmano”, resumiu a rádio pública NPR, da qual o presidente Donald Trump está tentando cortar verbas por sua cobertura completamente enviesada.

Hoje, a Comissão Eleitoral da Cidade de Nova York confirmou a vitória: Mamdani conseguiu 56% dos votos, contra 44% de Andrew Cuomo, de uma família mais tradicional dentro do Partido Democrata nova-iorquino. É uma vantagem de quase 50 mil votos. Daqui duas semanas, o novato deve ser confirmado como o candidato democrata a prefeito. As eleições acontecerão em novembro.

James Lindsay, matemático e autor de livros críticos ao identitarismo e ao socialismo, lançou um alerta nas redes sociais: “não deixe que o enganem ou mintam para você. Zohran Mamdani é um comunista”. Como indício, ele compartilhou um tweet do político do final de 2020 em que Mamdani repostava a publicação de uma conta comunista que exaltava uma política indiana, e comentava que ela era “o tipo de prefeito que a cidade de Nova York precisa agora”.

O político também é criticado dentro do próprio Partido Democrata, por ter defendido o corte de verbas da polícia durante a febre racial de 2020, uma posição que os democratas agora gostariam de esquecer que já defenderam.

Candidato terá de enfrentar a comunidade judaica de Nova York

Além de combater a resistência dos americanos contra o socialismo e o comunismo — que tem enfraquecido nos últimos anos, o político vai ter que enfrentar a influente comunidade judaica da cidade. Influenciadores judeus têm desenterrado o que ele disse quando o Hamas fez o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel.

Naquele exato dia, a organização política da qual Mamdani faz parte, Socialistas Democráticos da América (DSA), expressou “solidariedade à Palestina” e colocou a culpa pelo ataque em Israel, a quem a DSA acusou de manter um “regime de Apartheid”. O ataque “não foi sem provocação”, disse a organização. A nota cita Mamdani, deputado estadual de Nova York, como um exemplo positivo por ter criado uma campanha de pressão para barrar fundos para Israel.

No dia seguinte ao ataque, Mamdani se manifestou com uma nota oficial: “o caminho para uma paz justa e duradoura só pode começar pelo fim da ocupação e desmonte do Apartheid”, ele disse, sem fazer nenhuma crítica explícita ao Hamas.

O ápice da postura do político em relação a Israel foi um drama político que ele imaginou em uma entrevista de dezembro passado. “Como prefeito”, ele mandaria que “a cidade de Nova York prendesse Benjamin Netanyahu. Esta é uma cidade em que os nossos valores estão alinhados com o direito internacional. É hora das nossas ações também se alinharem”. Que bravo, ele.

Quem é Zohran Mamdani?

Zohran Mamdani é rico, filho de dois imigrantes formados em Harvard, uma diretora de cinema que já teve Denzel Washington atuando em um de seus filmes e um professor da prestigiosa Universidade Columbia. Seus colegas de escola eram outros filhos de milionários. A popularidade do comunismo entre filhos de ricos é um fenômeno recorrente desde os tempos do próprio Marx, ele próprio sustentado por um herdeiro, Friedrich Engels.

O deputado nova-iorquino faz aquele velho esforço socialista de adotar uma estética de austeridade: não possui carro e paga aluguel. Mas é dono de terras em Uganda, onde ele nasceu — ele foi para os EUA com sete anos e se naturalizou cidadão em 2018. A revista Forbes calcula seu patrimônio em torno de US$ 200 mil. A escola em que ele estudou, Bank Street, custava US$ 66 mil por ano.

A graduação de Mamdani foi em “estudos africanos”, no Bowdoin College, instituição particular no estado de Maine que formou os CEOs da Netflix e da American Express.

Mamdani cresceu em casas pertencentes à Universidade Columbia e seus pais parecem ainda morar em uma dessas propriedades. Este é um fato politicamente saliente, pois Columbia foi um epicentro de manifestações anti-Israel que atraíram a atenção e ira do governo Trump.

O jornalista Matt Taibbi (um dos autores das reportagens Twitter Files dos EUA), simpatizante de Bernie Sanders, não tem muito tempo para a retórica de Mamdani. Em sua publicação Racket News, Taibbi o descreve como “o super-herói da Marvel para todo estudante ativista que lê a revista [socialista] Jacobin” e “usa [o xale palestino] keffiyeh”.

A vitória do imigrante nas primárias democratas é “quase certamente um presságio para uma disputa épica num futuro próximo no ápice da política americana entre o socialismo e, bem, todo o resto”, diz o jornalista. Taibbi lembra que Mamdani fez uma “quase defesa do grito de guerra ‘globalize a intifada’”, além de não assinar uma resolução da Assembleia de Nova York que reconhecia o Holocausto e liderar esforços de boicote a Israel.

O mais preocupante para o jornalista, contudo, é a plataforma econômica do candidato. Comentando os planos de supermercados estatais e várias coisas “grátis”, Taibbi resume sua reação com sarcasmo: “¡Viva la revolución!”

Taibbi, com 55 anos, começou sua carreira cobrindo a União Soviética, onde havia de fato supermercados estatais. “Experimentei as delícias de comprar no estabelecimento ‘Carne nº 6’, onde a comida que comitês soviéticos de alimentação decidiam que era boa para mim tinha um gosto suspeito de cocô de cachorro em todo lugar, em todos os 11 fusos horários! A escassez era comum, não importa quantos ministros da Agricultura e do Transporte fossem desaparecidos, e isso apesar do abundante trabalho e de toda a terra arável que alguém pudesse querer.”

“É o outro lado da moeda do trumpismo, inevitável por motivos similares”, ele afirma, defendendo seu apoio do passado a Bernie Sanders ressaltando a diferença entre os dois homens. Sanders, quando chegou a Washington, “ficou mais próximo de Eisenhower que de Marx”, defendendo ideias menos radicais como aumento de salário-mínimo, e “cresceu muito pobre no Brooklyn e nunca perdeu seu afeto pelo partido do New Deal”.

Mamdani também é um rapper, com nome artístico “Mr. Cardamom”. “Nani”, um de seus clipes, com um rap interpretado quase completamente em sussurro, é sobre uma idosa imigrante se afirmando contra o desrespeito de seu filho. É engraçado.

Mas o New York Times não está contente de ver um comunista ascendendo no quintal de sua casa. “Singularmente despreparado”, disparou a publicação em um editorial. Mas são tempos de rede social, em que a reclamação pode terminar ajudando a impulsionar a carreira do político alinhado com as principais causas da esquerda alternativa.

A expectativa para Mamdani no Partido Democrata é de sucesso. Já há influenciadoras gravando vídeos pelas ruas de Nova York usando uma camiseta com a estampa “Gostosas por Zohran”.

Ele fica bem na frente das câmeras, comenta Taibbi: “ele não é Trump e ele tem certeza, o que conta para muita coisa na era da Internet. Ele é a pessoa perfeita, na hora perfeita, para vender a única coisa que os Estados Unidos nunca compraram por compulsão. Que troféu seria este país caindo nos braços do socialismo internacional. Somos burros o suficiente para fazer isso, também?”

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