Por Gerson Ramos*
As plataformas de inteligência artificial chegaram ao grande público com a promessa de uma nova era da criatividade: acessível, descentralizada e sem filtros ideológicos. O discurso inicial era libertador. Mas a realidade que se impõe é bem diferente — marcada por filtros, bloqueios e moderação automatizada que age como novo mecanismo de controle cultural e simbólico.
Foi Donald Trump, ainda em seu primeiro mandato, quem primeiro enfrentou publicamente esse sistema, denunciando o uso político das big techs para suprimir vozes conservadoras e manipular a circulação de informação. O americano vocalizou a resistência global contra a censura digital imposta por corporações tecnológicas com apoio institucional e financeiro de elites transnacionais.
Em seu segundo mandato, essas big techs mudaram o discurso e sinalizaram um alinhamento com a plataforma política de Trump, que já tinha a seu lado Elon Musk e o X. Apesar do encerramento das políticas de fact-checking por Mark Zuckerberg, em relação a Facebook e Instagram, ou mesmo de mais transparência nas novas versões da OpenAI, o que se observa na prática é a continuidade — e até a sofisticação — da censura algorítmica.
Em ambientes digitais onde antes havia promessa de liberdade criativa, hoje há limites invisíveis, definidos por diretrizes ambíguas e aplicadas de maneira opaca.
A censura se manifesta com sutileza: prompts negados, imagens distorcidas, vídeos não gerados, textos reformulados sem consentimento. E os critérios, quando revelados, muitas vezes mostram alinhamento com uma agenda ideológica global: valores progressistas, linguagem neutra, exclusão de sátiras políticas e simbolismos culturais que desafiem a narrativa dominante.
Essa prática não se restringe à regulação pontual de conteúdo ofensivo ou criminoso. Trata-se de uma reformulação silenciosa do espaço simbólico permitível. Plataformas que hoje dominam a produção de linguagem, imagem, som e vídeo — como ChatGPT, Midjourney, DALL·E, Sora, Pika e outros — estão determinando, de forma preventiva, o que pode e o que não pode ser imaginado.
A justificativa usual é simples: “São empresas privadas”. Mas essa alegação ignora um fato essencial: essas corporações controlam os principais canais de criação, comunicação e circulação de conteúdo do planeta. Elas deixaram de ser serviços opcionais e se tornaram, na prática, a infraestrutura cognitiva e cultural da civilização digital. Não há equivalência possível entre essas plataformas e um jornal privado ou uma empresa comum. Elas mediam a realidade.
Essa concentração de poder foi reconhecida inclusive no âmbito jurídico. O juiz Clarence Thomas, da Suprema Corte dos EUA, já alertou que as big techs formam, na prática, um oligopólio da informação, atuando como censores privados em escala global, o que levanta sérios questionamentos constitucionais sobre liberdade de expressão.
Essa lógica de oligopólio não é inédita. A Microsoft foi condenada nos anos 1990 por práticas de monopólio, ao impor o Internet Explorer como navegador padrão em seus sistemas, sem oferecer opção real ao consumidor. Hoje, o Google enfrenta processo semelhante por concentrar mercado em torno do Chrome — com sugestões de autoridades judiciais norte-americanas de que a empresa deveria ser obrigada a vender seu navegador para restaurar a competição leal.
O padrão se repete: monopólios de infraestrutura digital que restringem opções e impõem visões hegemônicas.
Além disso, muitas dessas diretrizes seguem padrões coordenados por instituições internacionais, como a ONU, a UNESCO, o Fórum Econômico Mundial, além de conselhos influenciados por fundações bilionárias e atores políticos transnacionais. O resultado é uma homogeneização ideológica do discurso público — um cartel narrativo em escala global, onde divergências são tratadas como infrações.
Ainda que existam IAs instaladas localmente — como modelos de código aberto ou editores de vídeo que permitem liberdade total na criação — esses recursos exigem conhecimento técnico que está fora do alcance da maioria da população, que depende quase que exclusivamente das plataformas públicas para criar e se expressar. E mesmo alguns aplicativos de IA instalados no dispositivo, como o ChatGPT Desktop, o Copilot da Microsoft, ou suas versões mobile, continuam processando os dados na nuvem das empresas, mantendo os filtros ideológicos e simbólicos ativos.
O caso do Gemini, a inteligência artificial do Google, é outro exemplo alarmante. Mesmo instalado como assistente nativo nos celulares Android, o Gemini apresenta um viés ideológico evidente. Ele restringe respostas sobre política, história, cultura e religião, filtra imagens com base em critérios opacos e alinha sua atuação à cartilha progressista-globalista dominante nas big techs.
Ao ser distribuído como opção “padrão” para bilhões de usuários — em celulares, navegadores e agora também no sistema operacional mais utilizado do mundo — o Google não está apenas oferecendo um serviço. Está embutindo sua visão de mundo no cotidiano digital de toda uma civilização. Esse tipo de controle não precisa ser violento. Basta ser constante, invisível e monopolizado. A censura do século XXI não usa silenciadores. Usa default settings.
O impacto vai além da política. A censura alcança também a arte e a religião. Plataformas de IA como a OpenAI, por exemplo, bloqueiam a criação de imagens religiosas tradicionais, como representações do Cristo na cruz, alegando diretrizes de conteúdo “sensível”. Essa restrição, embora disfarçada de neutralidade, elimina a possibilidade de criação artística baseada em símbolos culturais e espirituais universais, evidenciando que a censura atinge também o coração da expressão humana, não apenas o discurso político.
Veja o Brasil. Durante a tramitação do PL das Fake News e o inquérito das supostas “milícias digitais”, memes foram alçados à categoria de crime, com ameaças de prisão a criadores, especialmente os que ousaram satirizar políticos ou ministros do STF. O deputado André Janones chegou a sugerir que criadores de memes deveriam ser punidos criminalmente. E decisões judiciais chegaram a usar a criação de memes como prova de “campanha de desinformação”.
Ora, se até o humor visual está sendo vigiado com lupa por autoridades e ferramentas digitais, onde está a linha que separa o controle legítimo da repressão simbólica?
A história mostra que esse tipo de lógica repressiva nunca termina bem. Nos regimes autoritários do século XX — da Alemanha nazista à URSS, da China comunista ao Irã teocrático — o primeiro ataque sempre foi contra a arte e contra a linguagem. Livros queimados, músicas proibidas, peças censuradas, autores exilados. O que antes era feito à força, hoje é feito por código, moderadores invisíveis e modelos preditivos que suprimem o possível.
A censura atual não silencia pela violência. Ela apaga pelo algoritmo. Não ameaça o corpo — obscurece o pensamento. Não proíbe ideias. Apenas impede que elas sejam formuladas. Essa não é uma disputa técnica, tampouco estética. É uma disputa de poder — sobre quem controla o espaço simbólico do mundo digital. E enquanto os principais ambientes de criação forem dominados por filtros ideológicos, impostos sem debate público e com respaldo de instituições supranacionais, a liberdade de expressão será apenas um enfeite protocolar nos termos de uso.
* Gerson Ramos é criador de conteúdo, designer digital, advogado e gestor de TI há mais de 30 anos.
