Luís Roberto Barroso cometeu duas indiscrições ao declarar que pediu ajuda aos Estados Unidos para ‘salvar a democracia’ por aqui. A primeira foi entregar a identidade de seu interlocutor no governo Joe Biden e a segunda foi se entregar como provável fonte da reportagem do Financial Times que primeiro falou sobre uma tal “campanha discreta” da Casa Branca para garantir o respeito ao resultado eleitoral de 2022.
Está lá na lacônica declaração do ministro durante evento em Nova York:
“Eu mesmo, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estive como encarregado de negócios americano. Estive muitas vezes, mas, em três vezes, eu pedi declarações dos EUA de apoio à democracia brasileira, uma delas do próprio Departamento de Estado (…) Acho que isso teve algum papel, porque os militares brasileiros não gostam de se indispor com os EUA, porque é aqui que obtêm seus custos e equipamentos”, disse o ministro.
O encarregado de negócios era Douglas Koneff, diplomata, ex-piloto da Marinha e formado em inteligência estratégica. Ele esteve na reunião de embaixadores convocada por Jair Bolsonaro para expor questionamentos à integridade do voto eletrônico – a mesma que rendeu sua inelegibilidade. No dia seguinte à reunião com embaixadores, Koneff emitiu uma nota à imprensa reafirmando sua confiança no sistema eleitoral brasileiro, a despeito de ser americano e nunca ter votado aqui.
“As eleições brasileiras, conduzidas e testadas ao longo do tempo pelo sistema eleitoral e instituições democráticas, servem como modelo para as nações do hemisfério e do mundo. Estamos confiantes de que as eleições brasileiras de 2022 vão refletir a vontade do eleitorado. Os cidadãos e as instituições brasileiras continuam a demonstrar seu profundo compromisso com a democracia. À medida que os brasileiros confiam em seu sistema eleitoral, o Brasil mostrará ao mundo, mais uma vez, a força duradoura de sua democracia.”
Quem soprou no ouvido do diplomata tais frases? Talvez a mesma voz que sussurrou ao jornalista Bryan Harris, chefe da sucursal do Financial Times no Brasil, que a declaração do embaixador foi um “antídoto contra a intervenção militar”, entre outras coisas.
“A declaração dos EUA foi muito importante, especialmente para os militares. Eles recebem equipamentos dos EUA e fazem treinamentos lá, de modo que ter boas relações com os EUA é muito importante para os militares brasileiros.”
Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Ou Barroso fixou em sua mente a frase que uma “autoridade de alto escalão do Brasil” disse ao repórter, numa matéria publicada há dois anos, ou foi o próprio a dizê-la há dois anos e a repeti-la agora, como um cacoete mental. Barroso, afinal, foi quem convidou os militares a integrarem a chamada Comissão de Transparência Eleitoral, estratégia que se revelou um desastre para seus planos.
Afinal, o relatório enviado ao TSE pelo então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, não excluiu “a possibilidade de fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas”. Apenas disse não ser possível afirmar “que o sistema eletrônico de votação está isento da influência de um eventual código malicioso que possa alterar o seu funcionamento”.
Ao assumir o TSE e banir as Forças Armadas da comissão, Alexandre de Moraes deixou claro que a atuação dos militares “não se mostrou necessária, razoável e eficiente no rol das entidades fiscalizadoras do sistema eletrônico de votação”. Lógico que não.
Paulo Sérgio já deveria saber no que estava se metendo ao receber, ainda em julho de 2022, a visita do secretário de Defesa americano, Lloyd Austin.
CAMPANHA NADA DISCRETA
Austin foi antecedido pelo então diretor da CIA, William Burns, e pelo assessor de Segurança Nacional de Biden, Jake Sullivan, gente da pesada, acostumada a operações psicológicas, lawfare, manipulação informacional, sabotagem institucional e insurreição política. Nada a ver com diplomacia. Tudo a ver com cavalaria. Guerra híbrida, para ser mais exato.
O chefe da diplomacia americana Anthony Blinken só daria as caras depois do 8 de janeiro, para reforçar o discurso de tentativa de golpe e solidarizar-se com Lula, Barroso e seus camaradas. Na ocasião, até Biden telefonou para o petista. Afinal, o Brasil, com seu Trump tropical, repetia o 6 de janeiro. Menos como história, mais como farsa.
A inação de G Dias, Lula em Araraquara, Flávio Dino assistindo a tudo da janela de seu agora antigo gabinete, a poucos metros de toda a baderna. Tudo tão verossímil quanto a matéria da agência do democrata Michael Bloomberg relatando, meses antes, um suposto pedido de ajuda de Jair Bolsonaro a Joe Biden para derrotar Lula.
A indiscrição de Barroso, prevejo, terá o condão de reforçar a suspeita da classe política e de boa parte da sociedade sobre o enredo do golpe e o objetivo real da ação penal que agora acossa Jair Bolsonaro, Augusto Heleno, Braga Netto, Alexandre Ramagem, Paulo Sérgio Nogueira e Almir Garnier; todos alvos de visitas de emissários americanos ao longo do ano eleitoral. Imperdoável.