Como prometido por Donald Trump ao assumir seu segundo mandato, todos os arquivos secretos relacionados ao assassinato do presidente americano John F. Kennedy em 1963 foram tornados públicos ontem.
É muita coisa para analisar: 2.200 arquivos, totalizando 63 mil páginas. Com as ferramentas modernas, contudo, um panorama claro vai tomando forma e resolução: as teorias da conspiração sobre o assassinato, especialmente aquelas que colocavam a culpa na Agência Central de Inteligência (CIA), são falsas.
Um dos arquivos mais importantes é um telegrama dos agentes da CIA de São Petersburgo que disseram que a KGB (agência de inteligência soviética) observava o autor do tiro que matou Kennedy, Lee Harvey Oswald. Os soviéticos teriam dito que Osward “tinha mira ruim quando treinou tiro ao alvo na URSS”.
Ou seja: um racista matou Martin Luther King Jr. motivado pelo racismo, um palestino matou Robert Kennedy (irmão de JFK) motivado por ressentimento porque o político apoiou Israel, e um comunista matou John F. Kennedy porque ele era o líder da maior nação capitalista do mundo.
Como colocou o jornal britânico The Independent: “historiadores e pesquisadores ávidos passaram o pente fino na montanha de documentos buscando qualquer sinal de algo novo ou chocante, mas, até a noite de terça, houve poucas revelações”.
Uma das revelações é importante para nós, brasileiros: durante a crise política de 1961, quando Jânio Quadros abdicou da presidência, os ditadores comunistas Mao Tsé-tung e Fidel Castro ofereceram ajuda material e militar a Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul. A intenção era assegurar que Jango, o vice, assumisse o cargo que era de seu direito.
Brizola rejeitou, temendo uma intervenção americana devido à proximidade com o comunismo que tal apoio criaria caso fosse aceito. Notoriamente, em uma entrevista do Roda Viva em 1987, Brizola ficou muito bravo quando um jornalista levantou a fofoca de que Castro o chamava de “el ratón”, suposto apelido afetuoso.
A conspiração da conspiração
Não há problema em duvidar do Deep State, especialmente das agências de inteligência americanas, que sugam tantos recursos do pagador de impostos do país e já fizeram, de fato, coisas escabrosas e esdrúxulas envolvendo até a tentativa de usar golfinhos como espiões.
Na autobiografia do eminente filósofo britânico Bertrand Russell, que se engajou politicamente nas duas Grandes Guerras, há menção a algo estranho sobre a investigação do assassinato de JFK.
O problema da mentalidade de teoria da conspiração é quando as pessoas fingem que sabem coisas que ninguém mais sabe, tudo por terem ligado os pontinhos de informações obscuras com sua suposta alta inteligência.
Na verdade, o QI médio do típico seguidor de teorias da conspiração é em torno de 85, um desvio padrão abaixo da média padronizada, segundo cálculos do cientista social Emil Kierkegaard.
Os adeptos de teorias da conspiração ficaram muito empolgados após a pandemia, porque sentiram que as inegáveis trapalhadas das autoridades e instituições estabelecidas durante a crise validavam suas ideias excêntricas. O que é relevante, aqui, não é se acertaram: é que, dados os seus péssimos métodos, seus acertos foram acidentes.
Uma das marcas do bom pensamento mais ignoradas pelos adeptos de teorias da conspiração é a navalha de Ockham: que a explicação mais simples é a mais provável. O princípio, que começou como um conselho do monge Guilherme de Ockham, hoje tem sólida fundação matemática na área da probabilidade.
Já criaram até teoria da conspiração sobre “teoria da conspiração”: o termo, dizem, teria sido criado pela… adivinhe… CIA, para difamar pessoas que levantam verdades incômodas que gente poderosa quer suprimir, como a suposta “verdade” sobre o assassinato de John F. Kennedy.
Isso, também, é falso. Se pesquisamos o termo “teoria da conspiração” em inglês no Ngram Viewer, uma ferramenta do Google com um banco de dados que inclui livros e informações muito anteriores à Internet, vemos que a expressão já era usada desde 1829. Depois dessa data, caiu em desuso, mas o termo já estava em alta três anos antes do tiro fatal de Oswald.
Se você não confia no Google, pode conferir no site de Yale o artigo “A teoria da conspiração da 14ª emenda”, do acadêmico Howard Jay Graham, publicado em 1938. Você pode perguntar “mas Graham usa o termo com o mesmo sentido que usamos hoje”? A resposta é afirmativa: no artigo, Graham está reclamando de uma teoria da conspiração a respeito da emenda à Constituição americana que aboliu a escravidão. A ideia é que a redação da emenda foi cuidadosamente planejada para incluir empresas entre “pessoas” com direito à liberdade e à propriedade.
Uma teoria da conspiração, segundo Graham, é “não documentada, com conclusões implícitas em vez de explícitas”. Qualquer coincidência com adeptos de outras teorias da conspiração hoje, que em vez de afirmar coisas com clareza ficam fazendo insinuações nebulosas, não é mera coincidência.
Imagino que, na época, socialistas estavam avançando a teoria da conspiração contra a emenda da abolição porque estavam descontentes com a proteção da propriedade privada de empresas, e racistas estavam tentando achar algum problema na emenda. Não que sejam grupos mutuamente exclusivos: os socialistas têm uma longa história de racismo.
O desenho cômico South Park já zoou as teorias da conspiração de uma forma que valida justamente a proposta de Graham de que os adeptos fazem insinuações. No episódio “Dances with smurfs” (2009), eles fazem uma paródia de âncoras da época da Fox News propensos a teorias da conspiração, fazendo do personagem Eric Cartman (um garoto manipulador e psicopata) um deles.
Cartman ataca a presidente da classe, Wendy Testaburger, com uma série de insinuações e conclusões implícitas, alegando que ele está só “fazendo perguntas”. Butters, o personagem mais ingênuo da turma, acredita em tudo. Porque sempre foi assim: teoria da conspiração é coisa de gente ingênua que se acha muito esperta.
