Tarifas de Trump podem beneficiar os EUA, mas “caminho é estreito” - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Tarifas de Trump podem beneficiar os EUA, mas “caminho é estreito”

Trump (à direita) na companhia do primeiro-ministro irlandês Micheál Martin, março de 2025. Foto: The White House.
Trump (à direita) na companhia do primeiro-ministro irlandês Micheál Martin, março de 2025. Foto: The White House.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

No ano passado, antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, 44 economistas americanos de instituições importantes como MIT, Princeton e Yale opinaram sobre a política de tarifas (impostos de importação) defendida pelo candidato Donald Trump, e aplicada em seu governo anterior como presidente.

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Dos especialistas consultados, 95% concordaram que quem paga por uma “porção substancial” das tarifas é o consumidor americano, não os países-alvos.

A enquete foi feita pelo Centro Kent Clark de Mercados Globais, afiliado à Escola de Negócios Booth da Universidade de Chicago. Dos participantes, dois eram vencedores do Nobel de Economia: Daron Acemoglu e Abhijit Banerjee, ambos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Eles concordaram que o fardo das tarifas cai no consumidor.

Contudo, enquanto Banerjee deu uma nota de 7 em 10 para sua confiança na tese, Acemoglu expressou mais incerteza, dando nota 3 e comentando que a relação entre as tarifas e os preços finais depende de outros fenômenos econômicos e que as evidências ainda não dão um panorama completamente claro do que acontece quando se aumenta tarifas.

Ainda que haja uma alta concordância entre os economistas entrevistados de que poderão ser os próprios eleitores de Trump e os demais cidadãos americanos que pagarão pelas tarifas, há, portanto, alguma dúvida que pode salvar a política de Trump.

O desequilíbrio do comércio internacional e o fardo dos americanos

Há quem ache que Trump pode estar no caminho certo. É o que propõe um relatório de novembro escrito pelo estrategista sênior Stephen Miran, da Hudson Bay Capital, uma experiente empresa de gestão de investimentos com escritórios em Nova York, Miami, Londres, Hong Kong e Dubai.

O propósito de Miran não é defender Trump ou suas políticas, mas fornecer uma noção detalhada do que pode ser feito no complexo tecido de relações do comércio internacional.

Uma das consequências já observáveis das tarifas de Trump é a desvalorização do dólar; é por isso, mais que pelas políticas econômicas de Lula, que o dólar ficou abaixo de R$ 6,00 nas últimas semanas.

Essa consequência era a que Miran tinha em mente: “a raiz dos desequilíbrios econômicos está na persistente sobrevalorização do dólar”, argumentou Miran. Segundo ele, permitir que o dólar permaneça alto demais “impede o equilíbrio do comércio internacional”.

Nas finanças internacionais, a demanda por dólares é resistente à flutuação dos preços. Muitos querem usar o dólar como uma reserva de valor, como fazem muitos brasileiros para enfrentar a instabilidade do real, especialmente na atualidade, com a disponibilidade de contas digitais na moeda americana. Governos, bancos e comerciantes internacionais fazem o mesmo. Essa inflexibilidade na procura é conhecida como “demanda inelástica”. Quanto mais desejado é um produto, mais caro ele fica: é o mesmo princípio para o dólar.

Pode soar bom à primeira vista que a moeda de seu país seja uma moeda forte. Mas se ela for forte demais, uma consequência disso é que, embora importar produtos seja barato, exportar é caro, desincentivando a produção nacional.

Assim, dólar alto demais significa, para os Estados Unidos:

  • perda de competitividade da indústria americana;
  • déficits da balança comercial persistentes, que pioram a situação da produção doméstica;
  • fechamento de indústrias que saem do país, com perda de empregos e salários menores para os empregos que restam, baixando o padrão de vida nas regiões afetadas;
  • problemas sociais das comunidades afetadas, como o aumento da dependência de programas de assistência e erosão do tecido social com mortes de desespero como as overdoses de fentanil e outras drogas;
  • riscos de segurança nacional, pois é afetada a produção de bens essenciais e materiais relacionados à defesa;
  • pouca flexibilidade econômica, pois o país é obrigado a manejar a demanda por sua moeda, o que tem um custo para sua capacidade de manejar suas necessidades domésticas.

Os benefícios em potencial das tarifas

De acordo com Miran, as tarifas ajudam a mitigar os problemas acima. Seriam melhores que taxar o americano diretamente, embora Miran não discorde dos economistas mencionados acima: boa parte do custo das tarifas cai sobre o consumidor americano, mas elas poderiam ajudar a reduzir o déficit.

Além disso, ao ajudar a baixar o valor do dólar, as tarifas ajudam a deslocar seu custo econômico para exportadores estrangeiros, cujo poder de compra diminui quando suas moedas desvalorizam.

Miran acredita que o período 2018-2019 da primeira administração Trump mostra que uma parte significativa das tarifas foi compensada pela desvalorização da moeda estrangeira, especialmente a chinesa. Aqui, há um risco: mesmo que essa desvalorização ajude a compensar pelo custo das tarifas, ela pode ser desastrosa para todos os atores se for brusca e causar uma grande fuga de capitais da China devido à alta alavancagem e vulnerabilidade financeira do país.

Quanto aos preços aumentarem, isso poderia ser um efeito sobre os produtos importados, ajudando a baratear os produtos nacionais e realocar as cadeias de produção para o ambiente doméstico. Enquanto isso, produtos feitos nos EUA podem ficar mais competitivos na escala global.

Um efeito das tarifas que Trump tem usado com sucesso é o poder de barganha: ele obteve vitórias em disputas políticas com líderes estrangeiros só com a ameaça de aumento. Gustavo Petro, por exemplo, cedeu em uma disputa sobre imigrantes colombianos deportados pelos EUA em janeiro.

Stephen Miran concluiu seu relatório dizendo que o segundo mandato de Trump seria uma oportunidade para mudar o sistema econômico internacional. A mudança viria “acompanhada de volatilidade”, ele alertou.

“O consenso de Wall Street de que uma administração não tem nenhuma forma de afetar o valor de câmbio do dólar, se assim desejar, está errado”, proclamou Miran. “Há um caminho pelo qual o governo Trump pode reconfigurar o comércio e sistemas financeiros internacionais para o benefício dos Estados Unidos, mas é um caminho estreito e vai exigir planejamento cuidadoso, execução precisa e atenção aos passos para minimizar as consequências adversas”.

Com apenas dois meses de governo, ainda é cedo para dizer se a política de tarifas de Trump acertou no alvo apontado por Miran.

Dilema de Triffin e o preço do sucesso

Assim como aconteceu com os bilhões da USAID no mundo da assistência humanitária e das organizações civis, o mundo se acostumou demais a ter os Estados Unidos como curador das reservas de valor globais. Nos anos 1960, a parcela do Produto Interno Bruto global na mão dos Estados Unidos era de 40%. O valor baixou para 21% em 2012, mas voltou a subir para 26% na atualidade. Um preço de ser tão responsável pelas reservas globais é a necessidade de manter um déficit para exportá-las na forma de ativos de reserva como títulos públicos. Esse déficit pode atingir um ponto máximo a partir do qual um risco de crédito acomete o próprio ativo de reserva. Isso é conhecido como “dilema de Triffin”.

“Uma moeda de reserva deve ser conversível em outras moedas, e um ativo de reserva deve ser um reservatório estável de valor governado por um sistema legal confiável. Enquanto outras nações como a China aspiram a ter o status de reserva, elas não satisfazem nenhum dos dois critérios”, escreveu Miran. De certa forma, os Estados Unidos são vítimas de seu próprio sucesso.

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