Na última quinta-feira (16), o presidente americano Donald Trump fez um pronunciamento de quase meia hora em que anunciou a remoção do sigilo de documentos que mostrariam interferência chinesa nas eleições de 2020, pleito no qual ele jamais reconheceu a vitória de Joe Biden, do Partido Democrata.
Trump caracterizou os documentos como prova de “vulnerabilidades chocantes na nossa infraestrutura eleitoral”, incluindo “hacking, abusos e interferência estrangeira”. O trabalho de publicação foi supervisionado por uma força-tarefa de transparência da Casa Branca.
“A República Popular da China realizou o que se acredita ser o maior comprometimento de dados eleitorais da história”, afirmou Trump. “Membros do Estado profundo nas nossas agências de inteligência trabalharam para suprimir ativamente e minimizar informações sobre a extensão da interferência da China nas eleições”. Trump, que era presidente durante as eleições de 2020, disse que não foi informado sobre a interferência.
O que dizem os documentos
Os documentos, apesar de tornados públicos, ainda trazem muitos trechos censurados com tarjas pretas. É o caso de um relatório de 24 páginas creditado a uma “Agência sensível do Governo” (talvez a CIA). Nas partes não censuradas, há a afirmação de que a China “possui lista de dados provavelmente vazados e comprometidos”, parte são “dados de eleitores”. A obtenção dos dados é datada entre 2009 e 2018.
O relatório traz uma tabela com um número específico de registros de eleitores vazados e obtidos em 2016: 204.822.241 registros, totalizando 45 gigabytes. Os registros contêm, segundo o documento, “nomes, idades, números de telefone, endereços etc.”.
Outra base de dados obtida pela China em 2017 continha 1,75 milhão de outros registros de um estado americano específico não identificado, dessa vez com “identificações de eleitor, nomes completos, endereços atuais, endereços passados, datas de nascimento, gênero e números de telefone”. Outro banco de dados do mesmo ano continha 7,9 milhões de registros de outro estado. Um terceiro banco de dados de 2017, de um terceiro estado não identificado, continha 5,6 milhões de registros. Há outras fontes de dados de cidadãos americanos listadas, meia dúzia sem total conhecido, além de vazamentos de empresas e plataformas de rede social.
Os documentos sustentam que a China ativamente buscou e comprou grandes volumes de dados cadastrais de eleitores americanos, de interesse para espionagem e influência política. Há casos de autoridades americanas vítimas de chantagem chinesa.
O que é difícil demonstrar, contudo, é que esses dados serviram para interferência eleitoral direta. O governo Trump tem usado a palavra que consta no relatório, “comprometido”, mas não está claro o que o termo acrescenta além de mera obtenção para uso analítico. As origens dos dados são diferentes: alguns foram baixados de sites comerciais e comprados; outros foram vazados. Nem todos foram coletados por via criminosa como o phishing (fraude por meios digitais).
No campo da interferência indireta, os dados são mais interessantes. Os documentos indicam que os agentes de inteligência conheciam planos da ditadura chinesa para explorar tensões raciais nos Estados Unidos, além de imigração, armas, pandemia e polarização nas redes sociais. Isso representa risco real de espionagem, chantagem, engenharia social e propaganda personalizada.
Uma das principais revelações dos documentos é a discordância interna nas agências de inteligência sobre as intenções da China: se eram interferência eleitoral ou mera construção de capacidades futuras.
Um relatório do Conselho Nacional de Inteligência, com a data de 19 de agosto de 2020, quando Trump ainda era presidente em seu primeiro mandato, diz que a Rússia tinha interesse em favorecê-lo nas eleições daquele ano, enquanto a China favorecia Biden. Mas “Pequim não tinha a intenção de tentar afetar a eleição”, afirma o documento.
“Bomba” parece mais um boato
Uma alegação particularmente explosiva consta em um documento do FBI que fala em “Produção e exportação pelo governo chinês de carteiras de motorista dos EUA fraudulentas para simpatizantes da China nos Estados Unidos, com o objetivo de criar dezenas de milhares de votos fraudulentos por correio para o candidato à presidência Joe Biden, no fim de agosto de 2020”. A ditadura comunista estaria fazendo isso a partir de “dados de usuários americanos de milhões de contas no TikTok, incluindo nome, identidade e endereço”.
Porém, o próprio documento diz que a informação é “inteligência sem avaliação final” cuja fonte era um “colaborador com acesso indireto” cujo relato não tinha “nenhuma corroboração por menos de um ano”. A fonte alegou ter obtido a informação de um terceiro que, por sua vez, “alegou ter obtido de oficiais não identificados do governo da RPC [República Popular da China]”. O autor do relatório do FBI comentou que o TikTok não coleta endereços de usuários e que não foi especificado como o aplicativo faria isso (se por GPS, por exemplo, ou por outro método).
Máquinas de votação
O mesmo relatório do Conselho Nacional de Inteligência que afirmou que Vladimir Putin queria a eleição de Trump também mencionou as “urnas eletrônicas” e máquinas de tabulação de votos usadas em alguns dos estados americanos. O documento afirma que atores hostis “poderiam manipular” esses sistemas de forma localizada, mas que isso seria difícil em larga escala. Os autores também expressam ceticismo quanto à manipulação em larga escala de votos por correio.
A razão para a dificuldade de fraude em larga escala nas máquinas de votação utilizadas nos EUA, na opinião do relatório de inteligência, é que “auditorias pós-eleições e registros em papel provavelmente revelariam tais esforços em quase todos os estados”.
No Brasil, existe um boletim de urna como registro em papel, mas não há registro individual impresso de voto conferido pelo eleitor (VVPAT), o que as cortes supremas da Índia e da Alemanha consideram inconstitucional em seus países. No Brasil, o STF fez o contrário: declarou a impressão do VVPAT inconstitucional.
Ainda no assunto das máquinas de votação, os documentos tornados públicos contêm um relatório técnico da CISA (agência de cibersegurança do Departamento de Segurança Interna ou DHS), de julho de 2026, e uma nota da CIA de junho de 2026.
O relatório da CISA resume avaliações realizadas entre 2019 e 2024 que encontraram vulnerabilidades reais em softwares eleitorais e nas redes de órgãos públicos que lhes davam suporte. Entre os casos mencionados está um exame forense, encomendado pela inteligência americana, de equipamentos da empresa Dominion usados nas eleições de Porto Rico em 2024. A CISA afirma ter analisado o relatório resultante, mas ressalva que não teve acesso às máquinas e, portanto, não pôde realizar uma verificação independente. O documento também menciona pesquisas sobre falhas nas máquinas Dominion ImageCast X. As constatações demonstram riscos técnicos, mas não provam que votos tenham sido efetivamente alterados em Porto Rico ou em outra eleição.
A nota da CIA, por sua vez, reúne informações produzidas entre 2004 e 2020 sobre a relação da Venezuela com a empresa Smartmatic. Segundo o documento, autoridades venezuelanas demonstraram interesse persistente e provavelmente alguma capacidade de manipular sistemas eletrônicos mediante acesso privilegiado e controle da programação, transmissão e auditoria. A Smartmatic deixou de operar no país em 2018, depois de acusar o regime de Nicolás Maduro de inflar em mais de um milhão o comparecimento anunciado na eleição de 2017. A própria CIA, contudo, reconhece que não houve confirmação definitiva de fraude eletrônica em larga escala na eleição venezuelana específica e que Venezuela e Smartmatic não teriam capacidade previsível de repetir a operação no exterior sem controlar todas as etapas do processo eleitoral.
Não devemos confundir o exemplo sob análise com as eleições claramente fraudulentas na Venezuela, como a de 2024, roubada por Nicolás Maduro.
A Smartmatic já prestou serviços de comunicação de dados e voz por satélite em localidades remotas do Brasil, além de transporte de urnas lacradas e treinamento de profissionais de suporte. A empresa, contudo, jamais forneceu software ou hardware das urnas eletrônicas brasileiras.
Já a Dominion tem uma ligação mais indireta com o Brasil: em 2010, comprou ativos da Premier Election Solutions, que na época era a divisão americana de sistemas eleitorais da empresa Diebold. A Diebold, por sua vez, comprou, em 1999, a empresa Procomp, que fabricou urnas brasileiras sob diferentes contratos com a Justiça Eleitoral. Quem fabrica as urnas eletrônicas brasileiras desde 2020 é a Positivo. O próximo grande lote de urnas, a ser entregue em 2028, será objeto de nova consulta e edital. O software das urnas é desenvolvido integralmente pelo TSE.
Reações
Após a publicação dos documentos, David Becker, que preside o Centro de Inovação e Pesquisa em Eleições (CEIR), disse à AP que o governo Trump prometeu uma bomba, mas entregou um “fracasso”. O centro recebe dinheiro da Fundação Ford e da Iniciativa Chan Zuckerberg, instituto de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook.
Ryan Macias, especialista em tecnologia eleitoral que trabalhou em administrações republicanas e democratas, formulou a distinção técnica mais importante: a China ter dados de cadastro eleitoral não significa que bancos de dados governamentais ou a infraestrutura eleitoral tenham sido invadidos. “Os dados são informações que podem ser compradas legalmente por membros do público”, completou, em entrevista ao site PolitiFact.
Em artigo para o site Just Security, o ex-executivo sênior da CIA, Brian O’Neill, lembrou que o Comitê de Inteligência do Senado americano concluiu que a Rússia fez algo similar ao que foi revelado sobre a China nos documentos: atividades de exploração de dados “sem evidência de que os votos foram alterados ou as máquinas de votação foram manipuladas”.
Para O’Neill, as conclusões de Trump sobre os documentos contrastam com um relatório deste ano produzido pela Diretoria Nacional de Inteligência, publicado em março, que não identificou como grande ameaça a interferência estrangeira nas eleições americanas. Isso tanto enfraquece a tese dos inimigos de Trump de que ele só foi eleito graças à interferência russa em 2016 quanto mina a alegação de Trump de que perdeu em 2020 por causa da interferência chinesa.