Associação suspeita de fraude no DF cresceu 48 mil% em dois anos
Brasília, Sexta, 19 de junho de 2026
Justiça

Associação suspeita de fraude no DF cresceu 48 mil% em dois anos

Operação Juros Zero apura descontos irregulares e bloqueia quase R$ 90 milhões

MPDFT
Foto: Reprodução/ MPDFT

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Por Redação

A Associação dos Servidores Públicos do Distrito Federal (ASDF), apontada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) como uma das principais peças de um suposto esquema de descontos indevidos em contracheques de servidores públicos, registrou um crescimento de cerca de 48 mil% em sua arrecadação em menos de dois anos, segundo dados reunidos pela investigação da Operação Juros Zero, deflagrada nesta sexta-feira (19).

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Informações da Secretaria de Fiscalização de Pessoal do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) mostram que a expansão financeira da entidade ocorreu entre 2023 e agosto de 2025. Para os investigadores, o avanço é incompatível com a estrutura operacional da associação e levanta dúvidas sobre a real natureza de suas atividades.

De acordo com documentos encaminhados à Justiça, a ASDF funciona em um espaço de coworking, não possui rede credenciada própria nem quadro técnico compatível com o volume de recursos movimentados. A investigação também reuniu relatos de servidores que afirmam nunca ter se associado à entidade ou autorizado descontos em seus vencimentos.

Diante desses elementos, o MPDFT sustenta que há indícios de que a associação tenha atuado como uma entidade de fachada, utilizada para viabilizar cobranças lançadas diretamente na folha de pagamento dos servidores. A suspeita é de que operações de crédito e antecipação salarial tenham sido registradas sob códigos relacionados a benefícios associativos ou planos de saúde, permitindo descontos automáticos nos contracheques.

A Operação Juros Zero cumpre 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em São Paulo e em Curitiba. Por decisão judicial, também foi determinado o bloqueio de quase R$ 90 milhões em contas ligadas ao PicPay e à ASDF, com o objetivo de preservar recursos para eventual ressarcimento dos prejudicados.

Além da associação, são alvos da investigação o Banco de Brasília (BRB), a BRB Serviços S.A., a Secretaria de Economia do Distrito Federal, o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF) e dirigentes e ex-dirigentes dessas instituições.

Entre os investigados estão o ex-secretário de Economia do DF, Ney Ferraz Júnior; o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, atualmente preso em outra investigação relacionada ao Banco Master; e Eduardo Chedid Simões, diretor do PicPay.

Segundo o Ministério Público, o esquema teria sido viabilizado após a edição de um decreto distrital em 2024. As apurações indicam que encargos financeiros eram apresentados aos servidores como simples “taxas”, embora possuíssem características típicas de juros cobrados em operações de crédito.

A suspeita ganhou força após o TCDF analisar a modalidade de antecipação salarial oferecida a servidores do Governo do Distrito Federal. Em decisão anterior, o tribunal concluiu que a chamada “taxa de antecipação” possuía natureza econômica equivalente ao custo do crédito.

“Independentemente da nomenclatura utilizada, possui a natureza econômica de custo do crédito, sendo, para todos os efeitos, uma forma de juro”, afirmou o TCDF em manifestação citada na investigação.

Os investigados poderão responder por crimes contra a economia popular, publicidade enganosa nas relações de consumo, inserção e alteração de dados em sistemas da administração pública, corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

As apurações também identificaram semelhanças com as fraudes investigadas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), nas quais descontos eram lançados automaticamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas sem autorização válida. No caso do Distrito Federal, a suspeita é de que mecanismo semelhante tenha sido utilizado para inserir cobranças relacionadas à antecipação salarial diretamente nos contracheques dos servidores.

Em nota, o PicPay negou irregularidades. A empresa afirmou que “não reconhece qualquer irregularidade nas operações mencionadas e rejeita a alegação de cobrança indevida”. A companhia também declarou que seus produtos seguem a legislação vigente e que continuará colaborando com as autoridades durante o andamento das investigações.

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