O verdadeiro cérebro por trás do Banco Master
Brasília, Sexta, 19 de junho de 2026
Artigos Exclusivos

O verdadeiro cérebro por trás do Banco Master

Sócio petista de Vorcaro ficou bilionário com ajuda de Rui Costa e Jaques Wagner
Foto: Paulo Mocofaya/Agência ALBA

Compartilhe em

Foto do autor

Por Claudio Dantas

Desde o início das investigações sobre o Banco Master, criou-se o mito de que Daniel Vorcaro era o chefe do maior esquema de fraude bancária da história brasileira. Jovem, bilionário e agressivo, o mineiro ostentava a skin clássica de um titã do mercado. Os relatos envolvendo festas nababescas regadas a modelos suíças ajudaram a consolidar a imagem de um personagem irresistível para a crônica político-financeira. Mas isso mudou ontem.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

As informações expostas na Petição 16.201, sob a relatoria do ministro André Mendonça no STF, revelam um roteiro menos glamouroso, mas muito mais interessante. Enquanto Vorcaro atraia os holofotes, Augusto Lima gerenciava o negócio. Além de sócio, o empresário baiano era também CEO. Mantinha contatos com integrantes dos Três Poderes, contratava ex-ministros, reunia-se com o Banco Central. Trabalhava a máquina financeira e também a política.

A 9a fase da operação Compliance Zero deixa claro que Guga Lima era o cérebro por trás do crescimento agressivo — e nada republicano — do Master. A interlocução direta com o senador Jaques Wagner, líder do governo, atesta a relação umbilical com a cúpula petista e explica o recrutamento de expoentes da gestão Lula, como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, na tentativa de salvar o banco, costurando o negócio com o BRB e abrindo as portas do BC e do Palácio do Planalto.

O conteúdo extraído de seu aparelho celular, que não se resume aos contatos com Wagner, é hoje o artefato mais perigoso de Brasília, porque prova que as conexões dele com o poder real eram infinitamente mais profundas, capilares e operacionais que as de Vorcaro. Era Guga Lima quem construía as pontes e gerenciava o balanço de contrapartidas com o Estado, amparado pela engenharia jurídica dos advogados Daniel e David Lopes Monteiro, alcançados em fase anterior dedicada justamente ao BRB.

Mesmo ‘modelo de negócios

O escritório dos Monteiro foi o mesmo que estruturou a compra de imóveis de luxo, em São Paulo e Brasília, para Paulo Henrique, o ex-presidente do Banco de Brasília. Ontem, descobrimos que ele replicou o modelo para satisfazer a uma demanda do líder do governo Lula. Em novembro de 2024, o próprio senador enviou a Guga os dados e o livro digital do suntuoso condomínio Poème Horto, em Salvador, cravando: “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”.

  • A Operação: Lima acionou imediatamente Valério Marega Júnior (o “Valério Fundos”) para estruturar a compra oculta por meio da empresa Epítome S.A.
  • O Código: Mesmo com a PF nas ruas em fases anteriores, as tratativas contrate mídias prosseguiram via videoconferências comandadas pelos Monteiro, que usavam termos cifrados como “A altura do vão é 2,45m” para se referir ao preço do imóvel.
  • A Cobrança: Mensagens interceptadas mostram Eduardo Mendonça Sodré Martins, o “Dudu” (enteado de Jaques Wagner), cobrando o banqueiro em setembro de 2025: “Amanhã vence os boletos e são altos”.
  • O Duto: Lima justificou o sufoco temporário pelo insucesso da operação de venda do Banco Master ao BRB, mas azeitou a engrenagem. Uma transferência de R$ 3,5 milhões foi feita à BN Financeira Ltda. (empresa da família de Wagner) através da PKL One Participações (empresa de Guga ligada ao Credcesta). No celular do advogado Daniel Monteiro, a PF ainda achou planilhas carimbando mais de R$ 2,34 milhões repassados a “Dudu” por vias interpostas.

A fraude dos R$ 12 bilhões

O pulo do gato para salvar e inflar o balanço do Master era a venda de carteiras de crédito para o BRB (Banco de Brasília), uma operação total de R$ 30 bilhões e na qual a PF identificou pelo menos R$ 12,12 bilhões em créditos fraudados ou “podres”.

  • A Articulação: Guga Lima operava a negociação com o banco público e mantinha Wagner ciente. Em março de 2025, disparou para o senador: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”
  • Carteiras baianas: As carteiras foram forjadas a partir de empresas da Bahia ligadas a Augusto Lima, com base em relações de empréstimos consignados vinculados a servidores do Estado comandado pelo PT de Jaques Wagner.
  • A Porta de Entrada: Para conquistar o trânsito necessário no Distrito Federal e chegar ao topo do governo de Ibaneis Rocha, Augusto Lima contou com a influência política de sua esposa, Flávia Péres (ex-ministra e ex-deputada pelo DF). Através do Instituto Terra Firme, doações do Master e uma rede de secretárias, o grupo ajeitava mimos e sustentação política para o negócio.

A chave do Planalto

Em troca do fluxo financeiro, a contrapartida vinha em canetadas e influência de alto escalão na Esplanada e no Congresso:

  • Lobby Legislativo: Wagner atuou na ampliação da margem de crédito consignado e monitorou a PEC 65/2023, que mexia no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). No dia em que a emenda do FGC foi incluída, Lima e Wagner falaram ao telefone por 9 minutos e 19 segundos.
  • Grife Jurídica: Usando Wagner como ponte, Guga Lima articulou a contratação de consultorias do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski (no intervalo antes de assumir o Ministério da Justiça) para dar verniz de idoneidade ao banco.
  • Porta do Planalto: Para furar o bloqueio definitivo e chegar ao presidente Lula, Guga Lima e Vorcaro contrataram o ex-ministro Guido Mantega por um salário estimado em R$ 1 milhão mensal. Deu certo: no final de 2024, Mantega colocou os banqueiros dentro do gabinete presidencial no Palácio do Planalto para uma reunião estratégica com Lula e ministros como Rui Costa.

Uma análise mais profunda do celular de Augusto Lima e de novas informações obtidas nas buscas de ontem colocam de vez o PT no centro do escândalo, atingindo em cheio a candidatura de Lula e colocando em alerta toda a cúpula petista que foi acionada pelo CEO do Master, não só nos últimos dois anos, mas ao longo de sua polêmica trajetória.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade