Por Leonardo Dias*
Primeiro, o devido ao trabalho. A Quaest fez o melhor campo deste ciclo: entrevistador batendo de porta em porta, 120 municípios sorteados, amostra com a cara do eleitor real, quase ao decimal. E justamente por isso o resto pesa mais. A margem de erro divulgada, ±2 pontos, vale para um tipo de sorteio que eles não fizeram. É como anunciar o consumo de gasolina de um carro testado em pista lisa de fábrica quando o carro roda em estrada de terra: o número é verdadeiro no papel e falso na vida. Refeita a conta para o sorteio que a pesquisa de fato fez, a margem honesta fica entre ±3 e ±3,5 pontos, e com ela o “Lula 44 x 38” do segundo turno deixa de ser manchete e vira hipótese, com empate dentro da conta. Não acabou. A Quaest perguntou ao eleitor se Bolsonaro deveria trocar Flávio de candidato, por quem, o que ele acha de Trump e o que muda se Trump apoiar Flávio. São as perguntas Q61 a Q67, todas aplicadas, gravadas e pagas. Nenhuma apareceu no relatório público. E quem pagou foi o Banco Genial, R$ 433.255,92, nota fiscal 353, um banco cujos fundos foram citados em operação da Polícia Federal sobre dinheiro do PCC, enquanto o próprio questionário pergunta ao eleitor se o PCC é organização terrorista. Sessenta por cento dizem que sim. O eleitor respondeu. O banco ainda deve a sua resposta.
A caixa-preta de R$ 433 mil
Aqui cabe dizer o que ninguém diz: o problema não é só desta pesquisa, é do que as pesquisas brasileiras decidiram nunca publicar. Qualquer levantamento sério no mundo civilizado disponibiliza microdados anonimizados, a planilha crua, sem nome de ninguém, para que qualquer pesquisador refaça as contas. Aqui, nada. Publica-se uma margem de erro única para a pesquisa inteira, quando cada resposta e cada cruzamento têm a sua: um recorte de 200 entrevistados carrega margem de ±7 pontos, não de ±2, e nenhum asterisco avisa o leitor que aquela tabela de evangélicos do Nordeste é quase um chute educado. Não se publicam os pesos finais nem os alvos de calibração, ou seja, quanto cada entrevistado foi inflado ou encolhido para a amostra parecer o Brasil. Não se publica o efeito de desenho, o número que separa a margem de vitrine da margem de verdade. Não se publica a matriz de transição do primeiro para o segundo turno, que mostraria de quem Flávio rouba e para quem Lula perde. E não se publica, caso Q61 a Q67, nem sequer a lista do que foi perguntado e sumiu. Pesquisa registrada no TSE é bem público com nota fiscal privada: o contratante paga pela coleta, mas o resultado pertence ao eleitor, que é o objeto e o destinatário do exercício. Sem microdados, sem pesos, sem margens por recorte e sem o questionário íntegro com todas as respostas, o que se publica não é ciência. É press release com tabela.
Feita a ressalva, vamos ao que a pesquisa revela sem querer.
O meio voto no L
Intergaláctico é a direita limpinha. Aquela que quer os votos de Bolsonaro sem o incômodo do Bolsonaro. Que passa o ciclo sabotando por dentro, de mãos dadas com a esquerda, e que no segundo turno descobrirá uma questão de princípios e pedirá voto nulo do alto do seu chá de alfazema.
A aritmética que esse pessoal finge não entender cabe numa linha: voto nulo não é neutro. Quando o eleitor antipetista anula, ele sai da conta dos votos válidos, e o voto de Lula, cravado em 44, passa a pesar mais na divisão. Nulo de eleitor de direita é meio voto no L. Sempre.
A Quaest mostra o estrago em gestação. Branco e nulo sobem de 9% no primeiro turno para 14% no segundo. Esse delta de 5 pontos tem digitais, e elas não são do petista. São do Zemula, o eleitor que vota Zema no primeiro e Lula no segundo, e de seus primos Zemulo e Zemanco, que preferem o nulo ou o branco e chegam ao mesmo resultado por caminho mais elegante.
E parte do centrão nem se dará ao trabalho do disfarce: irá direto ao palanque de Lula. Kassab costurar a transferência pelo lado de Caiado não é hipótese maluca, é roteiro com precedente. O Caiadula está logo ali. O Cassabaiadula, a uma dose de chá de alfazema.
O balanço de massa
A Quaest não publica matriz de transição, então fiz o que a contabilidade manda: balanço de massa. Primeiro turno, Lula 39, Flávio 29. Segundo turno, 44 a 38. Flávio ganha 9 pontos, o maior salto de qualquer candidato em qualquer cenário. Lula ganha 5. E 18 pontos terminam fora da escolha: 14 de branco e nulo, 4 de indecisos. Entre os independentes, 39% recusam os dois.
Contra Lula, Flávio faz 38. Zema e Caiado fazem 35. Renan, 31. Lula fica estacionado em 44 ou 45 contra qualquer um, operando a 98% do próprio potencial, com 53% de rejeição e um governo desaprovado por 48%. A frase que resume a eleição: Lula administra estoque, a direita disputa fluxo.
E a física da vitória: do bolo fora do binário, Flávio captura hoje na razão de 1,8 para 1 e perde por um fio. Elevada a razão a 2,5 para 1, vence por 49 a 43. E o multiplicador dessa razão é um só: rejeição. Flávio tem 56%; levá-la abaixo de 47% é a métrica-mãe.
Primeiro turno: matar a terceira via antes de setembro
Os 9 pontos do segundo turno já são de Flávio. Só ainda não sabem disso. A missão é antecipá-los: de 29 para 35 ou mais, em quatro fases.
Junho e julho, fase ímã: zero ataque a Zema, Caiado e Renan, elogio seletivo, porque atacar agora só os consolida. Agosto, fase pinça: vice, ministérios e palanques na mesa, Tarcísio como primeira opção de chapa, Zema como segunda com a Fazenda chancelada, e adesões pré-assinadas para anúncio em 72 horas após a urna. Quem espera o resultado para negociar, negocia de joelhos. Setembro, voto útil explícito: o ataque nunca é ao candidato, é à inutilidade do voto, porque só um nome chega. Última semana, pânico controlado.
No mapa, sangrar o Nordeste em foco, onde cada ponto vale 0,28 nacional: Ceará com segurança e facções, Pernambuco neutralizando a máquina de prefeitos, oeste baiano com o agro. São Paulo é o cofre, com Tarcísio e a periferia evangélica. Amazonas, Zona Franca em voz alta. E Minas é capítulo à parte.
Minas, o estado que desempata o Brasil
Minas Gerais pesa 10,4% do eleitorado e carrega uma lei não escrita que nenhum candidato revogou: desde 1989, ninguém chega ao Planalto perdendo em Minas. É o fiel da balança nacional e, hoje, a capital mundial do voto Zemula, com suas variantes Zemulo e Zemanco, que trocam o Lula pelo nulo ou pelo branco e entregam o mesmo resultado com a consciência lavada. O Sudeste inteiro pende para Lula por causa de Minas e das capitais; quem estanca o Zemula vira a região, e quem vira a região vira o país.
O trabalho ali é fino e tem nome e sobrenome. Nikolas Ferreira precisa entrar de cabeça na campanha estadual, com Cleitinho e a bancada mineira, e a missão não é atacar o chá de alfazema, é torná-lo socialmente impossível, em Belo Horizonte, na periferia evangélica da região metropolitana e no interior que decide: Triângulo, Sul de Minas e Zona da Mata viram o estado. Quanto a Zema, a conta é contraintuitiva: Zema no palanque vale mais que Zema na chapa. Como fiador fiscal, chancelando o nome da Fazenda, ele entrega credibilidade econômica sem cobrar o ônus dinástico que a vice cobraria. E o que vale para Minas vale para Goiás, onde a mesma vigília precisa ser montada contra o Caiadula, com Kassab já de garçom, bandeja na mão, pronto para servir a transferência ao palanque governista.
Segundo turno: o plebiscito do custo
O segundo turno deve ser plebiscito sobre um governo desaprovado por 48%, não referendo sobre um sobrenome. A disputa real é pelos 18% órfãos. A rejeição cai por dissonância, não por grito: tom técnico, agenda social com Michelle, zero resposta a provocação. A blindagem do caso Master está no próprio dado da Quaest: o dano marginal real é 12%, não 65%, porque metade já não votaria nele de qualquer forma. E mobilização assimétrica na reta final, porque voto que fica em casa também é meio voto no L.
E há a engenharia anti-nulo, que merece parágrafo próprio porque vale a eleição. A resposta certa não é xingar o eleitor das tribos, é separar o eleitor do dono. O eleitor do Novo quer planilha, o de Caiado quer ordem, o do MBL quer não se ajoelhar: um pacote para cada um, uma ponte para todos. A mensagem de custo precisa sair da boca de vozes não bolsonaristas, jornalistas independentes, pastores moderados, dizendo a verdade aritmética sem culpar ninguém: anular é deixar quem está na frente decidir a sua vida, e quem pede nulo contra o Lula está pedindo voto para o Lula com vergonha de dizer. Antes de tudo, 12 grupos focais só com anuladores, em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, para responder à pergunta que calibra a campanha inteira: o veto a Flávio é moral ou é de capacidade? Se for moral, a resposta é blindagem Master e tom. Se for de capacidade, é equipe econômica completa anunciada antes do voto, com Tarcísio e Zema de fiadores. A meta tem número: branco e nulo de 14 para menos de 10 no segundo turno, porque cada ponto convertido vale cerca de 0,6 líquido na diferença. O intergaláctico vive de sequestrar voto de direita; a campanha vive de devolvê-lo ao verdadeiro dono, que é o eleitor.
A Quaest mediu bem e publicou pela metade. Mas entregou, sem querer, o retrato que a direita limpinha não queria ver emoldurado: o melhor segundo-turnista da direita chama-se Flávio Bolsonaro, e o único adversário capaz de derrotá-lo não mora no Alvorada. Mora no espelho, toma chá de alfazema e jura que anular é princípio. Em novembro, a urna fará a tradução simultânea: princípio, no dialeto intergaláctico, escreve-se com L.
Leonardo Dias é empresário, jornalista e cientista de dados, fundador da Arvor (arvor.co) e apresentador do podcast Rádio Café (oeditorial.co)
