Quase 900 mil famílias ganham mais com auxílios do que com trabalho
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Economia

Quase 900 mil famílias ganham mais com auxílios do que com trabalho

Auxílios superam salário mínimo para 894 mil famílias

José Cruz/Agência Brasil

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Por Redação

O Brasil tinha, ao final de 2025, cerca de 894,9 mil famílias recebendo ao menos um salário mínimo por mês em benefícios sociais. O dado resulta de um cruzamento de milhões de registros públicos feito pela DataBrasil e obtido pelo Poder360. No período, o salário mínimo líquido era de R$ 1.404,15.

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Parte desses pagamentos ocorre de forma regular, mas há indícios de irregularidades. Segundo o levantamento, famílias têm ocultado vínculos para acumular benefícios dentro da mesma residência.

Ao todo, 259,8 mil núcleos familiares recebiam entre R$ 2.000 e R$ 2.785 mensais. Em outros 39,2 mil casos, os valores ultrapassavam R$ 2.786, acima da renda de metade dos trabalhadores formais do país.

O estudo usa como referência o salário mínimo líquido para identificar famílias que recebem mais em auxílios do que no mercado de trabalho.

O número pode ser maior. Estados e municípios não disponibilizam todos os dados, o que limita o alcance do levantamento. Ficam fora da conta pessoas fora da idade ativa ou incapacitadas para o trabalho.

A DataBrasil identificou dezenas de milhares de indícios de fraude, alguns confirmados no Portal da Transparência pelo 360. Entre as irregularidades estão cadastros duplicados, uso de CPFs e NIS distintos e registros em cidades diferentes.

Também há casos de acúmulo de bolsas estudantis com benefícios federais, elevando a renda acima do salário mínimo.

Um beneficiário de Goiatins (TO), por exemplo, soma Bolsa Família (R$ 700), Pé-de-Meia (R$ 200), bolsa de ensino superior (R$ 700), bolsa permanência (R$ 1.400) e salário de R$ 1.404,15 como servidor estadual.

Outro caso envolve uma estudante da UnB que recebeu R$ 1.400 de auxílio permanência e R$ 650 do Bolsa Família. Não há comprovação de irregularidade nesse exemplo, por falta de dados sobre a composição familiar.

Nos últimos meses, foram registrados diversos indícios de falhas na fiscalização, como omissão de cônjuges, benefícios pagos por mais de uma década e cidades com mais beneficiários do que residências.

As distorções elevam o gasto público sem garantir redução proporcional da pobreza. Enquanto alguns acumulam benefícios, famílias mais vulneráveis permanecem na fila.

O governo dispõe de bases completas com dados de beneficiários, incluindo CPF, endereço e composição familiar, mas o cruzamento dessas informações não ocorre com a frequência necessária.

Dados do IBGE indicam que, em 2024, cerca de 15 milhões de domicílios estavam entre os 20% mais pobres, com renda per capita de até R$ 381.

“Se uma família recebe benefícios sociais que somam mais que esse valor per capita, ela passa a ter renda superior à média dos mais pobres. Do ponto de vista distributivo, seria melhor limitar o valor de benefícios recebidos per capita e realocar para as famílias que ainda estão entre as mais pobres”, diz trecho da nota técnica da DataBrasil.

Além dos programas federais, 19 estados e o DF mantêm iniciativas próprias de transferência de renda, com regras menos padronizadas e menor transparência.

Segundo o estudo, o acúmulo de benefícios pode afetar o mercado de trabalho formal. “Em especial para este grupo de “superbeneficiários”, o desincentivo ao trabalho formal tende a ser importante, pois os valores recebidos pelos benefícios sociais, que são mais seguros e garantem mais tempo livre (para cuidados com a casa, família e lazer), são parecidos com o recebimento do mercado de trabalho formal”, diz trecho da nota técnica.

O relatório do DataBrasil aponta que o principal desafio é ajustar os programas para evitar distorções: “Desafio” é distinguir adequadamente “perfis distintos de necessidade e ajustar o desenho dos programas para que a rede de proteção não produza barreiras involuntárias à mobilidade econômica, especialmente para adultos aptos ao trabalho”.

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