ONGs LGBT ganham dinheiro do governo para perseguir opiniões com IA - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 03 de julho de 2026
Brasil

ONGs LGBT ganham dinheiro do governo para perseguir opiniões com IA

Censura em nome dos LGBT. Imagem produzida por IA.
Censura em nome dos LGBT. Imagem produzida por IA.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Finalmente, os ativistas identitários que tomaram as causas LGBT conseguiram o que queriam. O Ministério dos Direitos Humanos, junto com a organização não governamental Aliança Nacional LGBTI+, está lançando ao custo de R$ 300 mil, pagos por emenda parlamentar da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), a “Plataforma do Respeito”, um projeto de delação de suposta intolerância para promover a censura.

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Não só é uma plataforma “X9”, como chega ao ponto da distopia por empregar uma inteligência artificial (IA) chamada Aletheia para “rastrear as origens da desinformação, denunciar seus impactos e viabilizar a responsabilização de autores e disseminadores”.

No site da plataforma, não há conversas abertas ao público com a IA, apenas um formulário de denúncia que sugere os motivos “fake news”, “discurso de ódio”, “conteúdo violento” e “assédio”. Nenhum desses termos, exceto “assédio”, tem tipificação na lei brasileira — e até “assédio” está vago demais.

Ou seja, a plataforma, regada a dinheiro de impostos e apoiada pelo Governo Federal, está convidando o público a denunciar coisas que não são crimes e que com toda probabilidade serão meras opiniões, ainda que intolerantes, mas legais. É de fazer inveja ao Ministério da Verdade de George Orwell.

O coordenador da plataforma, Jean Muksen, deixou claras as suas intenções de tentar intimidar parlamentares e fazer fichamento de adversários de seu ativismo político: “Estamos monitorando basicamente todos os perfis de todos os parlamentares do Congresso e das assembleias legislativas dos estados atualmente. Além disso, influenciadores, blogs, sites de notícias — tem uma lista gigantesca”, disse ele no evento de lançamento, em 16 de setembro.

Érika Hilton, que persegue feministas que não acreditam que mulheres trans são mulheres, já fez outras coisas questionáveis com dinheiro público, como revelou este site: ela destinou cerca de R$ 1,5 milhão em emendas para outra ONG. Além disso, empregou maquiadores sob a justificativa de serem assessores parlamentares.

Como se vê, a maior mentira das ONGs é o “N” de “não governamental” na sigla. Se recebem dinheiro do governo, são efetivamente parte da agenda do governo, não entidades independentes. Dos R$ 300 mil alocados, R$ 140 mil serão destinados em um ano apenas para pagar quatro integrantes da “Plataforma do Respeito”, segundo a Gazeta do Povo.

Mas há mentiras piores que o “N”.

Segurando a verdade como refém

Há mais de seis anos, estou denunciando inverdades produzidas por ONGs que alegam atuar pelos direitos LGBT em seus relatórios de mortes por suposta motivação de intolerância anti-LGBT.

A resposta, até hoje, tem sido muito pouco argumentativa. Geralmente, os ativistas respondem tentando atirar no mensageiro. Quando reconhecem a inadequação de seus dados, alegam que não tiveram outra escolha, pois o governo não produz dados oficiais, como se isso fosse uma desculpa para a falta de rigor. No mesmo fôlego, esses ativistas sugerem que eles deveriam ser beneficiários de verbas governamentais para continuar fazendo esse trabalho.

Batizei essa estratégia de “segurar a verdade como refém”. É como se os ativistas identitários dissessem “sim, sabemos que estamos mentindo, mas continuaremos mentindo até que dinheiro de impostos abasteça nosso bolso”.

Boa parte da imprensa repete as inverdades produzidas pelas ONGs e ignora as refutações de seus relatórios. Entre as autoridades que também repetem a narrativa estão ministros do Supremo, incluindo Alexandre de Moraes, que tem repetido até o jargão dos ativistas, segundo os quais “discurso de ódio” não está incluído na liberdade de expressão. Os Estados Unidos discordam, e não são um inferno para as minorias alvo de preconceitos populares, muito pelo contrário.

“Pelo 16º ano consecutivo, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis”, alegou Moraes no dia 15 de outubro, com base em duas ONGs, em um julgamento de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF, um dos instrumentos mais usados pelas ONGs e os partidos ligados a elas para atropelar a lei via ativismo judicial).

Em contraste, um economista sênior da UNAIDS, Erik Lamontagne, usou métodos científicos rigorosos — ao contrário das ONGs — em um artigo de 2018 e concluiu que o Brasil é o segundo país mais inclusivo e tolerante para com os LGBT entre nações de renda baixa a média, em uma lista de 158 países. Mas fontes científicas não interessam a Moraes e muitos outros.

As inverdades pioneiras do Grupo Gay da Bahia

As goianas Fabiana Brás Conceição e Daniella Silva Gomes eram namoradas. Em 21 de dezembro de 2016, receberam uma ligação de um número desconhecido. Pensando que se tratava de uma oportunidade de negócios, elas aceitaram um convite para um encontro presencial.

Ao chegar lá, elas se aproximaram de um carro com dois homens. Victor Silva Parente estava ao volante, acompanhado por Renato Fabrício Santos Pereira. O segundo gravou um vídeo contando o que, segundo ele, aconteceu em seguida.

“Essas meninas passaram e deram três tiros de oitão [calibre .38] e eu escapei”, disse Renato — essa parte provavelmente é mentira. “Aí eu peguei e vim mais os meninos e peguei elas lá. Eu atirei. A gente foi lá e eu atirei. Fui eu, o Victor e outro menino que me emprestou o celular para ligar para elas” — essa parte contém mais verdade. Fabiana e Daniella morreram. Elas tinham 21 e 19 anos de idade, respectivamente.

Os assassinos foram condenados por “homicídio qualificado por motivo torpe” por um júri popular, em 23 de outubro de 2018, após um julgamento que durou oito horas.

Qual foi o motivo torpe? O Grupo Gay da Bahia (GGB), ONG fundada em 1980 pelo historiador Luiz Mott, não esperou o julgamento para alegar que a motivação foi o preconceito contra lésbicas e LGBT em geral. Por isso, incluiu o caso em seu relatório de “mortes por homofobia” referente a 2016.

Há um problema, contudo. O juiz e o promotor discordam, e a defesa não levantou a hipótese. “A motivação é pelo tráfico de drogas na região. Tanto as vítimas quanto os réus vendiam drogas”, afirmou ao site G1 o magistrado que presidiu o caso, Jesseir Coelho de Alcântara. Uma droga mencionada foi o crack.

O promotor, Maurício de Camargos, disse o mesmo que o juiz e informou que a pessoa que emprestou o celular, em vez de cúmplice, foi testemunha. A defesa de Renato informou que seu cliente não quis recorrer da condenação.

O caso de Fabiana e Daniella foi só um de vários casos em que a afirmação do GGB de motivação preconceituosa por trás de mortes era uma inverdade. Em 2019, quando eu, David Ágape e três colaboradores investigamos cada um dos 347 supostos casos de morte por homofobia coletados pela ONG, só conseguimos confirmar 9%.

Em resposta ao nosso relatório, Mott alegou, em entrevista para a Gazeta do Povo, que “nossos críticos, no fundo, são cúmplices e têm as mãos sujas de sangue”. A tática identitária é velha: nos questione e te acusaremos de carregar os preconceitos que alegamos estar combatendo com nossos péssimos métodos.

Quando o STF criminalizou a homofobia em julgamento entre fevereiro e junho de 2019 por oito votos contra três, a estatística que desmentimos, referente a 2016, foi usada favoravelmente à narrativa dos ativistas identitários pelos ministros Celso de Mello, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Gilmar Mendes. Ricardo Lewandowski usou uma falsidade a respeito da expectativa de vida de pessoas trans (veja próxima seção). Marco Aurélio Mello, apesar de divergir dos oito colegas, também deu crédito às estatísticas do GGB.

GGB passou o bastão da lorota para outras ONGs

O GGB inspirou o mesmo tipo de “metodologia” em outras ONGs como a ANTRA e o Observatório de Mortes e Violência LGBTI+ no Brasil.

Invariavelmente, desde a checagem de 2019, essas ONGs passaram a se recusar a compartilhar publicamente os dados brutos de suas alegações, mesmo sendo eles originados em clipagens de notícias.

Nos anos seguintes aos relatórios, revisitei o assunto algumas vezes, só para descobrir que o rigor continua nulo. Em 2021, mostrei, com ajuda da minha amiga trans Ágata Cahill, que a ANTRA propagou em um relatório a falsidade de que as pessoas trans têm “expectativa de vida” de 35 anos no Brasil. O número é baseado em uma “amostra” de apenas três pessoas e é uma média de idade de assassinados, algo que não corresponde à definição de “expectativa de vida”.

Também mostramos que a afirmação de que o Brasil é o país que “mais mata” trans, assim como a alegação das outras ONGs de que ele é o que “mais mata” LGBT, é falsa.

Em 2023, me debrucei sobre um relatório do Observatório, que se recusou a compartilhar comigo a planilha das supostas 273 mortes violentas por intolerância contra LGBT. Apurei os três casos mencionados no corpo do relatório sem os dados completos, e pude confirmar que somente um poderia ser descrito como resultado de motivação preconceituosa.

O Observatório disse explicitamente no documento que consideraria violentas as mortes de LGBT causadas por “procedimentos estéticos” e “uso de substâncias ilícitas”.

Finalmente, nesta coluna, em janeiro de 2025, voltei minha atenção para a imprensa que replica a narrativa ativista. Mostrei que, de 20 veículos de comunicação que replicaram a estatística de supostas 291 mortes violentas por motivação de intolerância relatadas pelo GGB referentes a 2024, 100% desses veículos não colocaram ressalvas nas afirmações e replicaram o vocabulário militante exatamente como apresentado pela ONG.

Mott apareceu nos comentários, dessa vez para me acusar de “fundamentalismo e mau caratismo”, sem tocar em informações como o estudo do economista da UNAIDS. O fundador da ONG que não sabe aplicar sequer o conceito de amostragem estatística também me acusou de produzir “fake news anticientíficas e contrárias aos direitos humanos”.

Depois de conquistarem a cumplicidade da imprensa para propagar suas inverdades, as ONGs identitárias agora têm o apoio do governo e o dinheiro que ele tirou do meu bolso e do seu. E empregam seu Robocop Gay de inteligência artificial para perseguir quem se recusa a fazer autocensura. Bem-vindos à distopia.

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