O Gattopardo no Poder: Como o crime organizado corrompe a alma da nação
Brasília, Terça, 23 de junho de 2026
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O Gattopardo no Poder: Como o crime organizado corrompe a alma da nação

Tudo mudar para nada mudar: a tragédia brasileira

O Gattopardo no Poder: Como o crime organizado corrompe a alma da nação
Foto: Acacio Pinheiro/Agência Brasília

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Por Ary.Alcantara

Engana-se quem pensa que o crime organizado se resume a favelas, tráfico e séries de televisão. O verdadeiro poder mafioso não opera nas sombras do submundo — ele ocupa os palácios, os tribunais, os bancos centrais e as mesas de negociação internacional. Ele é o Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Se vogliamo che tutto rimanga come com’è, bisogna che tutto cambi”. Tudo deve mudar para que tudo permaneça exatamente igual. 

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No romance siciliano, o Príncipe de Salina assiste resignado ao fim de sua era aristocrática, enquanto o oportunista Tancredi e o arrivista Don Calogero selam a fusão entre sangue azul decadente e dinheiro sujo ascendente. Luchino Visconti transforma essa tragédia em poesia visual opulenta no baile de Donnafugata. Francis Ford Coppola e Mario Puzo levam o mesmo mecanismo ao coração do capitalismo americano: a família Corleone tenta “legitimar” o império criminoso, lavando dinheiro no Vaticano, comprando senadores e celebrando casamentos que selam pactos de poder. A valsa é sempre a mesma: beleza, pompa e melancolia escondendo a traição do povo e da nação. 

No Brasil, esse roteiro não é ficção. É a nossa história contemporânea. 

O crime organizado não precisa mais invadir o Estado — ele já o tomou. Enraizado em governos, tribunais, agências reguladoras e financiamentos eleitorais, ele cria leis que protegem seus lucros, garante “responder em liberdade” aos seus soldados e transforma a justiça em labirinto de recursos e impunidade. O discurso da “salvação democrática” contra os “anos de chumbo” serviu de cortina de fumaça para hipertrofiar o Estado tutelar: intervencionista, regulador de tudo, sufocador da iniciativa produtiva. Propriedade privada virou vilã. O “bem-estar social” justificou o controle absoluto. 

A equação é perfeita: esquerda agonizante e direita oportunista tornam-se ramos da mesma árvore gatopardista. Empresas campeãs, BNDES, Petrobras, pré-sal — tudo vira instrumento de perpetuação. Como bem observou Carlos Amorim, o financiamento eleitoral não é contribuição; é empréstimo a ser cobrado em obras superfaturadas, leis favoráveis e nomeações. O povo vai às ruas, a Lava Jato escancara a deformação patrimonialista, mas o sistema adapta-se, engole a ameaça e continua dançando. 

Bretton Woods, em 1944, foi o gatopardismo em escala global. Keynes sonhava com um sistema equilibrado, uma moeda supranacional que limitasse hegemonias. Prevaleceu o dólar e a arquitetura americana. O resultado? Um mundo onde o poder monetário, político e criminoso se fundem. Drucker via a ascensão das grandes organizações; o que ele não previu (ou previu demais) foi sua captura por interesses que transcendem nações. 

Hoje, no Brasil de 2026, às vésperas de novas eleições, o espetáculo se repete. Retórica polarizada entre Lula e Bolsonarismo, mas as estruturas — Congresso, STF, elites econômicas, reguladores — preservam o essencial: o controle sobre a produção, os recursos naturais e o destino do cidadão. No setor de mineração, energia e transição climática, o mesmo padrão: discursos grandiosos sobre desenvolvimento sustentável escondem a captura de licenças, terras e fluxos financeiros. O crime organizado não destrói a iniciativa produtiva — ele a parasita, corrompe e esteriliza. 

O custo humano é devastador. Quando o poder se torna fim em si mesmo, a evolução real do processo produtivo morre. O homem criador, empreendedor, responsável, é substituído pelo oportunista, pelo dependente do Estado, pelo cliente de favores. A qualidade do homem degrada-se: perdemos a dignidade da produção honesta, a meritocracia, o orgulho de construir. Restam a resignação do Príncipe ou a frieza calculista de Michael Corleone. 

Trump, com seu “drain the swamp”, representa uma tentativa ruidosa de ruptura nesse ciclo. Seus resultados são ambíguos — como todo gatopardismo, o sistema resiste e coopt. Mas a pergunta permanece: quantas vezes vamos assistir ao mesmo baile, com a mesma valsa melancólica de Nino Rota, enquanto o país real sangra? 

Chega de transformismo. Chega de mudanças cosméticas que preservam o podre. O verdadeiro progresso exige desmantelar a Hidra: separar o Estado do crime organizado, restaurar a justiça real, libertar a iniciativa produtiva e recuperar a qualidade moral do homem brasileiro. 

Enquanto não fizermos isso, continuaremos dançando no salão de Donnafugata — belos, elegantes e condenados. 

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