O cientista de dados Leonardo Dias publicou uma análise detalhada da pesquisa Quaest registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07661/2026. Em uma série de publicações na rede social X, ele afirmou ter revisado o questionário completo, os dados da amostra e os números divulgados pelo instituto.
Segundo Dias, o levantamento teve um dos trabalhos de campo mais robustos do atual ciclo eleitoral. Ao mesmo tempo, o analista questionou a divulgação parcial de resultados que, segundo ele, foram coletados durante as entrevistas, mas não apareceram no relatório público.
A pesquisa, contratada pelo Banco Genial ao custo de R$ 433.255,92, entrevistou 2.004 eleitores em 120 municípios entre os dias 5 e 8 de junho.
Dias afirmou que a amostra reproduziu com precisão a composição do eleitorado brasileiro quando comparada aos dados do TSE e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Segundo ele, sexo, idade e escolaridade apresentaram distribuição próxima à encontrada nas bases oficiais.
“Isso não acontece por sorte. Acontece quando alguém faz o trabalho”, declarou.
Apesar do elogio à metodologia de coleta, Dias concentrou suas críticas na forma como alguns resultados foram apresentados ao público.
A pesquisa mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno contra 29% de Flávio Bolsonaro. No cenário de segundo turno, o petista aparece com 44%, enquanto o senador registra 38%.
O analista destacou, porém, outro dado presente no questionário.
Segundo ele, na pergunta espontânea — quando o entrevistado responde sem receber uma lista de candidatos — Lula aparece com 23% e Flávio Bolsonaro com 17%.
Nesse mesmo cenário, 56% dos entrevistados afirmaram não saber em quem votar.
“Cinquenta e seis por cento. Mais da metade do país ainda não decidiu a eleição que o noticiário já deu por decidida”, escreveu.
Dias também destacou indicadores sobre a avaliação do governo federal. Segundo os dados divulgados pela própria pesquisa, a aprovação do governo alcança 47%, enquanto a desaprovação chega a 48%. Já a avaliação negativa aparece com 38%, acima dos 34% de avaliação positiva.
Na análise do cientista de dados, esses números indicam um cenário ainda aberto para a disputa presidencial.
Outro ponto levantado por Dias diz respeito à margem de erro divulgada pela Quaest.
O instituto informou margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Segundo o analista, o desenho amostral utilizado pela pesquisa, baseado em municípios e setores censitários, pode gerar uma margem efetiva superior à divulgada.
“A Quaest sabe disso melhor do que eu”, escreveu.
Dias afirmou que, dependendo do chamado efeito de desenho estatístico, a margem poderia variar entre aproximadamente 2,7 e 3,1 pontos percentuais.
Na avaliação dele, essa diferença altera a interpretação da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro em alguns cenários de segundo turno.
O principal questionamento feito pelo cientista de dados, entretanto, envolve perguntas registradas no questionário entregue ao TSE.
Segundo Dias, havia questões sobre uma eventual substituição de Flávio Bolsonaro como candidato da direita, avaliações sobre Donald Trump e uma pergunta sobre o impacto de um eventual apoio do presidente americano ao senador brasileiro.
Ele afirma que essas perguntas foram aplicadas aos entrevistados, mas que os resultados não apareceram no material público divulgado pelo instituto.
“Essas perguntas foram aplicadas. A 2.004 eleitores, dentro de casa, com gravação de áudio. Foram pagas pelo Banco Genial. Foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral. E não aparecem em lugar nenhum do PDF público”, declarou.
O analista disse não saber qual teria sido o resultado dessas perguntas.
“Eu não sei se essas respostas eram boas ou ruins para Flávio. E esse é exatamente o ponto: alguém sabe. Alguém leu, avaliou e decidiu que você não leria”, afirmou.
Dias também analisou o bloco de perguntas sobre o caso envolvendo o Banco Master e o senador Flávio Bolsonaro.
Segundo a pesquisa, 65% dos entrevistados consideram que o senador errou ao buscar financiamento com Daniel Vorcaro. Além disso, 60% afirmaram que o episódio levanta suspeitas, 62% acreditam que ele sabia da situação e 58% avaliam que pode estar escondendo envolvimento.
O cientista de dados destacou, porém, uma pergunta posterior do levantamento sobre impacto eleitoral.
Segundo os números citados por ele, 12% afirmaram que o episódio reduz a chance de votar em Flávio Bolsonaro. Outros 26% disseram que continuariam votando normalmente e 50% responderam que o caso não altera seu posicionamento porque já não votariam nele.
“O dano marginal real, eleitor que Flávio tinha e o caso tirou, é de 12%”, escreveu.
Ao analisar os cenários de segundo turno divulgados pela Quaest, Dias observou que Flávio Bolsonaro apresenta crescimento de nove pontos em relação ao primeiro turno, passando de 29% para 38%.
Segundo ele, esse movimento sugere a existência de um potencial de transferência de votos de outros candidatos da direita.
O cientista de dados também chamou atenção para o percentual de eleitores que pretendem votar em branco, anular ou que ainda não sabem em quem votar em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.
De acordo com os dados citados por ele, esse grupo alcança 18% do eleitorado.
Ao final da análise, Dias fez uma série de cobranças públicas à Quaest e ao Banco Genial.
Entre os pedidos estão a divulgação integral dos resultados de todas as perguntas aplicadas, a publicação do efeito de desenho da pesquisa, dos pesos estatísticos utilizados e da matriz completa de transferência de votos entre primeiro e segundo turno.
“Pesquisa registrada no TSE não é produto privado de banco. É bem público com nota fiscal privada. O contratante paga pela coleta; o resultado pertence ao eleitor”, escreveu.
