Delegada do caso Master diz ser “leiga” em sistema financeiro
Brasília, Quinta, 04 de junho de 2026
Justiça

Delegada do caso Master diz ser “leiga” em sistema financeiro

Responsável por interrogatórios no STF pediu explicações sobre depósitos compulsórios e auditoria contábil

Master foi usado pelo sistema e agora é descartado por ele
Master foi usado pelo sistema e agora é descartado por ele

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

A delegada da Polícia Federal Janaina Pereira Lima Palazzo, responsável por conduzir os interrogatórios no inquérito que apura operações do Banco Master, do BRB (Banco de Brasília) e do Banco Central, declarou desconhecimento sobre conceitos básicos do sistema financeiro durante os depoimentos. As oitivas ocorreram no Supremo Tribunal Federal (STF) em 30 de dezembro de 2025 e foram divulgadas ontem (29) para a imprensa.

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Designada para conduzir os depoimentos, Janaina afirmou ser “leiga” em temas relacionados à transferência de carteiras de crédito. Em um dos momentos, questionou o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, sobre o que seriam “depósitos compulsórios”.

O depósito compulsório é um instrumento central da política monetária. Trata-se de valores que instituições financeiras são obrigadas a recolher ao Banco Central, com base em percentuais definidos, como forma de controle da liquidez e da quantidade de dinheiro em circulação na economia.

Durante a oitiva, a delegada também demonstrou desconhecimento sobre procedimentos técnicos de auditoria contábil. “Foram aplicados, sei lá, diversos passos”, afirmou. A fala foi complementada por Ailton Aquino, que respondeu: “técnicas de auditoria”.

Em outro trecho do depoimento, Janaina voltou a afirmar não ter domínio técnico sobre o tema. “Eu peço essa explicação porque eu não sou técnica. Eu não sei como é que funciona”, disse, ao questionar padrões de aprovação de carteiras de crédito e a ausência de rendimentos identificáveis nos contratos analisados. Em seguida, pediu esclarecimentos diretos: “Compulsório, por favor”.

A Polícia Federal investiga o Banco Master por suspeita de criação de créditos sem lastro. O caso está sob relatoria do ministro Dias Toffoli desde dezembro, diante de indícios de envolvimento de autoridade com prerrogativa de foro.

A liquidação extrajudicial do Banco Master e do Will Bank é tratada como o maior rombo bancário do país. Segundo as investigações, o esquema envolvia a venda de títulos de renda fixa de alto rendimento, como CDBs, utilizados para financiar fundos de investimento dos quais o próprio banco seria o único cotista. O MPF afirma que os ativos circulavam sem geração real de riqueza, inflando artificialmente resultados financeiros.

Em depoimento à PF, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que não há clareza de que as operações configuraram fraude. “A gente não tem clareza até hoje que isso foi uma fraude. O que a gente percebeu foi uma mudança de padrão documental e de originação do crédito”, declarou.

Segundo Paulo Henrique, os documentos indicavam averbações regulares e débitos mensais. Ele afirmou que a operação envolvia cerca de R$ 12 bilhões, aproximadamente 400 mil CPFs e cerca de 1 milhão de contratos, e que o banco seguiu procedimentos usuais de mercado, com registro das operações e comunicação ao Banco Central.

A PF apura se houve omissão de gestores do BRB e falhas de governança na aquisição de carteiras que chegaram a representar cerca de 30% dos ativos do banco público. De acordo com a investigação, o Master teria adquirido créditos da empresa Tirreno sem pagamento e, posteriormente, revendido os ativos ao BRB por cerca de R$ 12 bilhões.

O Banco Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central, após a identificação de problemas de liquidez e incapacidade de honrar títulos com vencimento em 2025.

Na acareação entre Daniel Vorcaro, dono do Master, e Paulo Henrique Costa, ambos apresentaram versões divergentes. Vorcaro afirmou ter informado que as carteiras seriam originadas por terceiros e disse não saber, à época, que os papéis eram da Tirreno. Paulo Henrique afirmou que o entendimento do BRB era de que os créditos eram originados pelo próprio Master.

Os vídeos da acareação foram divulgados pelo Poder360 e tornados públicos por decisão do ministro Dias Toffoli.

Em depoimento à PF, o diretor do Banco Central Ailton Aquino afirmou que a governança do BRB deveria ter sido capaz de identificar a existência ou não dos créditos. Segundo ele, técnicas adequadas permitiriam essa verificação e houve falhas nos mecanismos internos do banco público.

Aquino afirmou ainda que o Banco Central questionou o BRB diversas vezes, por meio de ofícios, sobre a geração dos créditos adquiridos do Banco Master.

Em nota, o Banco Central informou que tem obrigação legal de monitorar permanentemente a liquidez das instituições financeiras, mas ressaltou que a responsabilidade pela análise da qualidade dos créditos adquiridos é exclusiva de cada banco.

Paulo Henrique Costa afirmou que, ao identificar mudanças no padrão documental, o BRB ampliou auditorias, comunicou o Banco Central e exigiu garantias. Segundo ele, cerca de R$ 10,5 bilhões já teriam sido substituídos, restando aproximadamente R$ 2,5 bilhões, enquanto o banco mantém cerca de R$ 9 bilhões em garantias constituídas.

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