Ativos vinculados ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e ao empresário Nelson Tanure estão mudando rapidamente de controlador. Credores passaram a executar dívidas garantidas por ações de empresas de capital aberto, enquanto os envolvidos buscam vender ativos líquidos para reforçar caixa,, segundo informações do Valor.
Entre as companhias afetadas estão Westwing, Emae, Oncoclínicas e Prio. As movimentações envolvem bancos, fundos de investimento e instituições financeiras que passaram a deter participações acionárias após inadimplência de operações estruturadas.

No ano passado, Vorcaro vendeu ao BTG Pactual ativos relevantes, incluindo o prédio do Hotel Fasano Itaim e participações na Light, Méliuz, Metalfrio, Veste, GPA e outras empresas listadas. Segundo sua defesa, as alienações fizeram parte de uma reorganização patrimonial para enfrentar problemas de liquidez do Banco Master.
“O Sr. Vorcaro buscava uma solução de mercado para o problema de liquidez do Banco Master”, afirmou a defesa, acrescentando que execuções de garantias seguem os contratos firmados.
O BTG declarou que as operações não envolveram participação societária no Master nem em empresas do seu conglomerado.
Execução de garantias
Na semana passada, a Mastercard executou garantias vinculadas a uma dívida do Will Bank, fintech ligada ao Master e liquidada extrajudicialmente. A garantia correspondia a quase 32% da Westwing, participação que estava sob controle da WNT, gestora citada como veículo de investimentos ligado a Vorcaro e Tanure, o que ambos negam.
A Mastercard informou que irá vender as ações recebidas e destacou que a manutenção de garantias faz parte de sua política de gestão de risco. O Banco de Brasília (BRB) também teve cerca de 7% de suas ações transferidas à operadora de cartões em operação semelhante.
A WNT afirmou que deixou a gestão dos fundos em 2024 e disse desconhecer as transações, negando vínculo societário com os envolvidos.
Oncoclínicas e BRB
O caso da Oncoclínicas envolve garantias cruzadas. Ações da companhia dadas pelo Master serviram de lastro tanto para operações com o BRB quanto para compromissos com a própria empresa.
Em 2024, o Master tornou-se acionista da Oncoclínicas ao investir R$ 1 bilhão em aumento de capital, passando a deter 20%. Os recursos, somados a um empréstimo de R$ 500 milhões ao presidente da companhia, foram aplicados em CDBs do próprio banco.
Após não acompanhar novo aumento de capital, a participação do Master caiu para 8,68% e acabou transferida ao BRB, segundo fontes. A Oncoclínicas informou que a fatia está sob disputa judicial e que o BRB não exerceu direitos políticos nas assembleias.
Investigações da Polícia Federal apontam que o BRB adquiriu carteiras de crédito fraudulentas do Master no valor de R$ 12 bilhões entre 2024 e 2025.
Emae e Sabesp
Na Emae, cerca de 70% do capital foi dado como fiança em emissão de debêntures estruturada por XP e Vórtx. Com a inadimplência, os credores anteciparam o vencimento da dívida e assumiram o controle da companhia.
A XP vendeu posteriormente a Emae à Sabesp por R$ 1,1 bilhão. Nelson Tanure tentou barrar a operação no Cade, sem sucesso. A autarquia aprovou a transação, e a Sabesp iniciou o processo de transição administrativa.
Prio, Gafisa e outros ativos
Na Prio, cerca de 17% do capital foi usado como garantia em operação de derivativos estruturada pelo Credit Suisse em 2023. Após a aquisição do banco pelo UBS, os papéis passaram a ser vendidos no mercado. Atualmente, a participação do UBS caiu para 2,41%.
A Gafisa também teve alteração relevante em seu quadro acionário após aumento de capital. A Wotan Realty passou a deter 14,72% da incorporadora. Dados da Receita Federal indicam ligação da empresa a estruturas associadas a Tanure, segundo investigações da PF na Operação Compliance Zero.
A Reag Investimentos, ligada a executivos próximos a Vorcaro, foi vendida e rebatizada como Arandu Investimentos após investigações envolvendo fraudes financeiras. Em janeiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF DTVM, antiga Reag Trust.
Há ainda incertezas sobre ativos como a farmacêutica Biomm, na qual o fundo Cartago detém 25,8%, e sobre a rede varejista Dia, que estava exposta a CDBs de banco ligado ao Master antes de sua recuperação judicial.
Procurados, Tanure, Alliança Saúde, Ligga Telecom, Reag, Veste, GPA, Emae, UBS e Trustee não comentaram. Prio e Méliuz não responderam até o fechamento.
Nota de defesa da Biomm
“A companhia, de capital aberto e pulverizado, tem conselheiros independentes e segue as regras da CVM e B3. Não há acordo de acionistas e todas as decisões mais relevantes do negócio são discutidas, votadas e aprovadas em reuniões do Conselho de Administração. Em caso de uma eventual liquidação do Fundo Cartago, acionista da companhia, as ações devem ser ofertadas a outros investidores interessados, conforme processo a ser definido pelas autoridades competentes. A Biomm fornece medicamentos essenciais para o sistema de saúde público e privado no Brasil, possui um modelo de negócios bem definido, planejamento financeiro sólido, baixo nível de endividamento e perspectiva favorável de crescimento para os próximos anos. A administração da empresa se mantém voltada para a execução do plano estratégico aprovado pelo Conselho de Administração. Não antevemos que a mudança de acionistas altere a perspectiva e condução do negócio.”
