O aiatolá vai cair? Os desafios do regime teocrático do Irã para continuar de pé em 2026 - Claudio Dantas
Brasília, Quinta, 04 de junho de 2026
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O aiatolá vai cair? Os desafios do regime teocrático do Irã para continuar de pé em 2026

Ali Khamenei, aiatolá e líder supremo do regime teocrático ditatorial do Irã. Foto: Reprodução/khamenei.ir
Foto: Reprodução/khamenei.ir

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O Irã, representante contemporâneo da civilização persa, é governado desde 1979 por uma teocracia islâmica xiita com uma bizarra crença de que um líder com 1.158 anos, mas ainda vivo, o Mahdi ou Imã Oculto, está se mantendo sobrenaturalmente escondido até que surja uma condição propícia para seu aparecimento.

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Para alguns líderes locais, possivelmente o aiatolá Ali Khamenei, o “supremo líder” no topo da hierarquia iraniana, essa condição inclui a destruição de Israel. O regime, contudo, que financia grupos terroristas como Hamas e Hezbollah, foi humilhado por 12 dias de bombardeio de Israel e dos EUA em junho passado.

Desde 28 de dezembro de 2025, o Irã foi tomado por uma onda de protestos em ao menos 21 de suas 31 províncias. “Têm natureza econômica, são bem violentos e estão se espalhando pelo país”, disse Sanam Vakil, diretora do Programa do Oriente Médio e do Norte da África na Chatham House, tradicional think tank britânico de relações internacionais.

O que coincidiu com o início dos protestos foi um recorde de desvalorização da moeda persa, o rial, perante o dólar. No dia 29, foi atingida a marca de 1,44 milhões de riais para cada dólar no câmbio, segundo a revista Forbes. A inflação atingiu 48,6% em outubro. A inflação anual para os alimentos chegou a 72%.

Um termômetro para a economia e a gravidade da situação é o Grande Bazar, no centro de Teerã, um mercado coberto que existe desde o século VII. Lá começaram as greves e protestos.

“Quando os mercadores do Grande Bazar juntam forças com os universitários e pensionistas, o regime não está mais só diante de um protesto; está diante de um colapso estrutural”, disse a Forbes.

O regime usa uma estratégia de dividir para conquistar contra a própria população. Com uma crise econômica, as classes e grupos sociais diferentes se voltam em uníssono contra o aiatolá.

Presidente iraniano tenta amenizar e troca presidente do banco central

Um testa-de-ferro do regime caiu na segunda-feira: Mohammad Reza Farzin, que renunciou ao cargo de presidente do banco central iraniano. Ele foi substituído na quarta por ordem do presidente do país, Masoud Pezeshkian, que disse, no ato de nomeação do novo chefe da instituição, no parlamento, que parte das reivindicações da população fazia sentido e que críticas podem melhorar o governo.

“Sabemos que as pessoas hoje em dia estão passando por intensa dificuldade com o custo de vida”, disse Fatemeh Mohajerani, uma porta-voz do governo.

O serviço persa da BBC registrou gritos de “Morte ao ditador!” na província de Hamadã, na parte centro-oeste do país.

Insatisfação nos últimos anos só cresce, sendo esmagada de forma assassina pelo regime

Em 2019, protestos por causa do preço da gasolina foram esmagados pela teocracia, que matou 1.500 pessoas.

Desta vez, ao menos 119 manifestantes foram presos, segundo a HRANA, agência de notícias da organização Ativistas de Direitos Humanos no Irã, fundada em 2006 por refugiados iranianos nos EUA. Os mortos nos protestos atuais podem chegar a 10, embora o regime só reconheça um morto, segundo a Reuters.

Em resposta aos relatos das vítimas fatais da ditadura teocrática, o presidente americano Donald Trump ameaçou invadir o país para resgatar os manifestantes. “Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, o que é de seu costume, os Estados Unidos da América virão para seu resgate. Estamos prontos”, disse ele em sua rede social, Truth Social.

Um dos assuntos que mais inflamam os universitários contra o regime é a questão dos costumes: entre setembro de 2022 e o início de 2023, por mais de 100 dias, o país chacoalhou com protestos pela morte de mulheres que protestaram contra o véu obrigatório. Ativistas refugiadas no Ocidente têm mostrado desde então registros de iranianas corajosamente desafiando a polícia da moralidade do regime exibindo seus cabelos em público.

Nesses protestos pela liberdade das mulheres, segundo o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, mais de 300 pessoas foram assassinadas, entre elas mais de 40 crianças. A HRANA contou 537 manifestantes mortos e 19.200 presos.

Outro assunto que inflama os iranianos é de natureza ambiental: a água está acabando no Irã, inclusive na megalópole de Teerã, com 10 milhões de habitantes. Em vez de fazer algo concreto a respeito, o regime teocrático está mais preocupado com a produção de mísseis e com o financiamento do terrorismo no exterior.

Em muitas cidades, os iranianos são forçados a fazer racionamento de água e são culpados pelo regime pela seca que no final de 2025 fez os reservatórios baterem recordes de baixo nível de abastecimento.

Apesar da retórica do regime, não são os cidadãos comuns, mas a agricultura que consome 90% das reservas de água do país, lentamente secando os aquíferos. Consequentemente, há colapso do relevo, afetando a infraestrutura.

O Irã insiste em leis protecionistas, como uma que exige 85% de produção nacional de alimentos, enquanto a agricultura responde só por cerca de 12% do PIB.

As autoridades já começaram a falar em evacuar Teerã, sem um plano claro para isso. O que fazem, aparentemente, é apostar em duas soluções: semear chuvas jogando sais de prata nas nuvens, com resultados decepcionantes, e rezar para o Imã Oculto aparecer. Mas ele não parece estar com pressa nenhuma. Já a população, com sede, açoitada pelo autoritarismo e pela inflação, pode em breve se cansar de ter um aiatolá.

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