Assumiu hoje, como 104ª primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, do Partido Liberal Democrático (LDP). O Japão não foi governado por 103 mulheres antes, como poderia sugerir a ambiguidade do gênero marcado na língua portuguesa. Ela é a primeira mulher a alcançar a posição. Mas ela própria preferiria a primeira forma de dar a notícia.
Aos 64 anos, com duas décadas de experiência como parlamentar, Takaichi não tem tempo para identitarismo. Ela tem adotado posições conservadoras em sua carreira política: ela se opõe a permitir que mulheres ascendam ao Trono do Crisântemo, ou seja, não quer imperatrizes no país.
A nova primeira-ministra também quer uma aproximação com os EUA de Donald Trump, com quem deve se encontrar na próxima semana — ela usa o slogan “O Japão está de volta” como Trump usa “Façamos a América grande de novo”. Ela defende uma política externa pró-Taiwan, e a revisão do dispositivo constitucional do pós-guerra que proíbe o Japão de ter forças armadas. Na sua percepção, a maior ameaça é a China.
Sanae Takaichi não é, como você provavelmente lerá nos blogs de esquerda, uma “ultraconservadora”. Apesar de ter se oposto à legalização do casamento gay, ela declarou que “não deve haver preconceito com base em orientação sexual ou identidade de gênero”. Mas ela concorda com Trump, por exemplo, quanto a criminalizar o vandalismo contra a bandeira de seu país.
Sua vida espiritual é no xintoísmo, religião tradicional japonesa que inspira os elementos mais misteriosos e interessantes dos filmes de animação do Estúdio Ghibli. A primeira-ministra quer a restauração dos ritos religiosos xintoístas e da educação moral religiosa. Ela é casada há 21 anos com um colega da Câmara dos Deputados, Taku Yamamoto, com quem não teve filhos, mas adotou os três filhos do marido de um casamento anterior.
Mas Sanae Takaichi não é um avatar de ideologia; tem seus aspectos individualizantes. Ela é fã de heavy metal, adora Deep Purple e Iron Maiden, e toca bateria. A líder já falou francamente sobre os desafios de ser mulher na política japonesa e foi estagiária no fim dos anos 1980 no gabinete da ex-deputada americana Patricia Schroeder, do Colorado, uma feminista do Partido Democrata.
Suas origens são relativamente humildes, na Prefeitura de Nara, uma área cheia de templos, florestas densas e colinas verdes, como nos filmes do Ghibli. Ela é filha de uma funcionária da polícia e de um operário da indústria de peças automotivas que acreditavam que a universidade não era necessária para mulheres — mas sua filha ainda se formou pela Universidade Kobe, que ela aceitou por pressão no lugar de instituições mais prestigiosas de Tóquio.
Uma amiga de infância de Takaichi disse ao New York Times que ela foi uma menina “risonha e muito reservada, sem essa imagem de mulher forte, mas que notava quando alguém não estava se integrando bem e tendo dificuldades, e ajudava”.
Antes da carreira política, até o começo dos anos 1990, a primeira-ministra foi uma personalidade da tevê japonesa, onde se revelou uma debatedora afiada. Seu pai gastou suas economias para a aposentadoria para sua primeira campanha política, resultando na primeira vitória em 1993.
Pouco mais de uma década depois, em 2006, Takaichi se tornou membro do gabinete do primeiro-ministro conservador Shinzo Abe, que teve o mandato mais longo na história do Japão pós-guerra. Abe fez dela uma aprendiz na política. O líder foi assassinado em 2022, quando passava por Nara, terra natal de sua pupila. O assassino tinha ressentimento contra a Igreja da Unificação, com a qual Abe mantinha relações.
A reação da imprensa ocidental
Pesquisei a cobertura da imprensa ocidental sobre o novo cargo de Takaichi, em uma amostra de veículos publicados em inglês, e a cobertura da imprensa japonesa, publicada na língua nativa. Dei foco ao aspecto de Takaichi ser mulher e como cada veículo reagiu a isso. Também separei os veículos de comunicação pela linha editorial.
Entre os veículos ocidentais, a BBC comparou a mandatária japonesa previsivelmente à Dama de Ferro (Margaret Thatcher, primeira mulher a governar o Reino Unido — foram três até o momento); o New York Times chamou sua vitória de “ascensão improvável em um país onde as mulheres há muito tempo lutaram por influência”; o Washington Post, replicando a Associated Press, cravou já na manchete “estrela ultraconservadora de partido dominado por homens” e destacou no texto que o Japão “está em posição baixa em rankings internacionais de igualdade de gênero”.
A agência Reuters disse que a japonesa “emula sua heroína, a líder britânica falecida Margaret Thatcher”, e apontou que as posições conservadoras de Takaichi são mais populares entre homens que entre mulheres do Japão. Reconheceu, contudo, que a primeira-ministra prometeu nomear mais mulheres em seu governo.
O ultraprogressista The Guardian, jornal britânico, já está reclamando que Takaichi nomeou somente duas mulheres como ministras de Estado e encontrou uma feminista japonesa, Chizuko Ueno, para comentar que “a perspectiva de ter uma primeira premiê mulher não me deixa contente” porque “não significa que a política japonesa vai ficar mais gentil para as mulheres”.
O veículo de esquerda linha-dura Democracy Now!, por sua vez, adjetivou a nova primeira-ministra japonesa como “opositora da igualdade de gênero” e considerou um paradoxo que ela, como mulher, não apoie causas feministas.
O Wall Street Journal destacou o pioneirismo de Takaichi no cargo por seu gênero, mas fez menos frenesi com este fato, discutindo mais suas propostas. Da lista de veículos ocidentais, é o único de centro-direita, sem tendências progressistas claras.
A reação da imprensa japonesa
Entre os veículos de comunicação japoneses, houve um destaque previsível sobre ser a primeira vez que uma mulher governa o país, mas, comparados à mídia ocidental, o fato foi menos enfatizado na cobertura.
Veículos mais à direita ou do establishment, como Yomiuri Shimbun, Sankei Shimbun e NHK, deram a notícia como um marco histórico, sem muito comentário a respeito de implicações “feministas”, por assim dizer. Preferiram comentar a lista de nomeações para compor o governo, o significado da vitória de Takaichi para a estabilidade política e a coalizão formada entre o LDP e o Partido da Inovação japonesa (Ishin, conservador de centro-direita).
O canal FNN, afiliado ao Sankei Shimbun, celebrou a vitória de Takaichi, apontou que só duas ministras foram nomeadas até o momento, mas não acusou a chanceler de incoerência por isso.
Os veículos japoneses mais à esquerda e ao centro reconheceram o marco histórico e discutiram de forma mais aberta as implicações do governo de Takaichi para a igualdade de gênero. O Mainichi Shimbun resumiu sua reação em uma manchete: “Primeira premiê mulher, mas ‘não se pode comemorar muito’”. O sentimento da esquerda japonesa é de ambivalência. Alguns dos consultados por esse jornal de centro-esquerda alegaram que a nova chanceler poderia impedir o progresso das mulheres.
Uma das declarações mais duras foi do ativista LGBT Soshi Matsuoka, que disse à agência Kyodo News que as opiniões “extremamente conservadoras” de Takaichi “lançam uma nuvem negra sobre a igualdade de gênero e os direitos de minorias”.
Em suma, mesmo considerando linhas editoriais similares, os veículos ocidentais fizeram mais fanfarra com o gênero de Sanae Takaichi do que os japoneses.
