“Esqueça minhas opiniões políticas, estou mais do que contente de dar a ele tanto crédito quanto ele merecer”. Essas palavras, que apareceram hoje no New York Times, são de Thomas Nides, embaixador dos Estados Unidos em Israel durante o governo do democrata Joe Biden.
E a pessoa a quem ele quer dar crédito pelo cessar-fogo entre Israel e Hamas é ninguém menos que o genro de Donald Trump, Jared Kushner (marido de Ivanka Trump).
Não foi a única realização de Kushner para trazer paz ao Oriente Médio. “Ele foi excepcionalmente importante para os Acordos de Abraão, sabe como lidar com Bibi [Benjamin Netanyahu] e entende os países árabes”, acrescentou Nides.
Kushner jamais teve um cargo remunerado nos governos do sogro, nem tem formação acadêmica em diplomacia ou relações internacionais. O que ele tem a oferecer é a capacidade pela qual Trump gosta de ser conhecido: a arte da negociação.
Do mercado imobiliário para Gaza arrasada
Jared Kushner atuou como conselheiro sênior na primeira administração Trump. Agora, auxilia o enviado especial de Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff.
Em seu livro de memórias publicado em 2022 sobre a primeira experiência, o genro do presidente americano conta que seu treinamento no mercado imobiliário de Nova York foi salutar.
“Ser atirado no papel de liderar nossa empresa [a imobiliária Kushner Companies] me preparou para um papel igualmente inesperado, mas bem mais importante, no governo federal”, escreveu Kushner.
Detalhe: ele assumiu o controle da empresa após seu pai, Charles Kushner, ter sido preso por causa de um esquema cabeludo, envolvendo uma briga sobre sonegação fiscal entre famílias empreendedoras de Nova York, em que ele contratou uma prostituta para tentar seduzir seu próprio cunhado. Trump concedeu perdão presidencial a Charles — que confessou culpa — em dezembro de 2020 pelos 18 delitos no caso.
Uma das técnicas aplicadas por Jared no setor imobiliário e em Gaza é a obtenção de um “sim” primeiro, deixando as tratativas dos detalhes do acordo para depois. Em um acordo envolvendo um prédio-sede das Testemunhas de Jeová, o empresário descreve o sucesso de fechar logo um acordo: “Ele fez um orçamento entre US$ 325 e US$ 350 milhões. Eu disse a ele que pagaria US$ 375 milhões se ele prometesse não fazer um leilão. Ele ligou para a diretoria, conseguiu a aprovação e apertou minha mão”.
No governo, Kushner descreve negociações similares: “Demos foco a finalizar o acordo de normalização com o Bahrein… [nossa equipe] trabalhou incansavelmente nas várias semanas seguintes para finalizar os detalhes do acordo”. Em um encontro com o emir do Catar: “Li as reações dele e decidi tentar. O pior que poderia ter acontecido seria ele dizer não”.
Para obter o “sim” de Israel e do Hamas, a persistência de um agente imobiliário foi necessária. No aniversário de dois anos do ataque terrorista do Hamas a Israel, o jornal New York Post noticiou que Witkoff e Kushner estavam a caminho do Egito para “discussões sobre encerrar a guerra em Gaza” e que não voltariam “até que um acordo fosse obtido”.
Witkoff, a propósito, é também um magnata do setor imobiliário de Nova York, que fez fortuna nos anos 1990 identificando propriedades subvalorizadas e comprando-as para reforma e revenda.
Kushner diz que também adotou métodos criados por Henry Kissinger, um dos maiores nomes da diplomacia americana no século XX. Profeticamente, no livro de 2022, ele credita a Kissinger a ideia aplicada no cessar-fogo anunciado esta semana: buscar entendimentos limitados e duráveis em vez de uma grande barganha, propondo que “acordos de curto prazo” e cessar-fogo poderiam se tornar um novo status quo.
“Se pudéssemos alcançar a paz entre Israel e o mundo árabe, então um caminho para a paz entre os palestinos e Israel por fim se abriria”, escreveu o conselheiro de Trump. Ele também leu clássicos como Sun Tzu.
Sem os Acordos de Abraão, o cessar-fogo teria sido mais difícil
É provável que os Acordos de Abraão tenham evitado que a retaliação de Israel ao ataque do Hamas em 2023 escalasse para um conflito mais generalizado na região, pois o objetivo de Kushner era “normalização de relações primeiro, Palestina depois”.
Os acordos implementaram normalização de relações ao abrir espaços aéreos entre os países do Oriente Médio como os Emirados Árabes, Arábia Saudita, Israel e Bahrein, além de grupos de comércio e segurança.
Em visita a Porto Alegre em abril de 2025, Fleur Hassan-Nahoum, ex-vice-prefeita de Jerusalém, elogiou os Acordos de Abraão. “Trump, brilhantemente, disse que poderíamos normalizar relações antes de resolver a questão palestina”, afirmou a gestora.
“As pessoas presumiram que o ataque seria o fim dos Acordos de Abraão. Um mês depois de outubro de 2023, a Liga Árabe se reuniu para fazer três boicotes contra Israel e os EUA. Para reverter os acordos, prejudicar os negócios e tirar os EUA da região. A boa notícia: não conseguiram passar os boicotes, porque os países dos Acordos de Abraão vetaram. Na minha região, isso é progresso”, disse Hassan-Nahoum.
“Os sauditas e os Emirados Árabes admitiram que ajudaram Israel naquela noite, quando o Irã atacou [Israel com mísseis].” Ela acrescentou que Israel fechou 2024 com US$ 3,2 bilhões de comércio com os Emirados Árabes. “A imprensa dominante não vai lhes contar isso”.
Neto de sobreviventes do Holocausto, crítico do Hamas
Dois dos avós de Jared Kushner, Rae e Joseph, sobreviveram ao Holocausto e emigraram para os Estados Unidos. Joseph fundou uma construtora do nada em Nova Jersey.
Em sua autobiografia, Kushner critica a forma como o Hamas aplicou o dinheiro que vinha de fora. “Em Gaza, os investimentos internacionais foram usados para pagar por programas de doutrinação dos jovens para odiar Israel e os Estados Unidos. Os fundos também foram usados para construir instalações secretas de armazenamento para esconder o equipamento militar do Hamas, que as forças israelenses tentariam destruir durante conflitos”.
Com negócios pelo oriente médio, Kushner conquistou a confiança dos árabes e dos turcos. Mas conta que fez críticas ao Hamas na frente do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. “Quando eu sugeri que o Hamas causou esse sofrimento pela via de seu terrorismo e má governança política, Erdogan fez uma pausa, olhou para mim com incredulidade e mudou de assunto”.
O cessar-fogo conquistado por Kushner e Witkoff, por enquanto, está rendendo frutos. Israel anunciou uma lista de presos palestinos que libertará em troca de um recuo para uma linha longitudinal aproximadamente no meio da Faixa de Gaza e da libertação dos cerca de 20 reféns ainda vivos. O tempo dirá se a astúcia do setor imobiliário novaiorquino finalmente entregará a paz na região.