O regime do chofer de Lula: Nicarágua está fazendo críticos desaparecerem - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 17 de julho de 2026
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O regime do chofer de Lula: Nicarágua está fazendo críticos desaparecerem

Lula recebendo Ortega em 2010. Foto: Roosevelt Pinheiro/Agência Brasil.
Lula recebendo Ortega em 2010. Foto: Roosevelt Pinheiro/Agência Brasil.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Críticos de Daniel Ortega começaram a sumir

A ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua, sobre a qual o Partido dos Trabalhadores só tem palavras positivas em seu site, está intensificando a repressão contra seus críticos com uma nova tática nos últimos dois anos.

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Segundo a jornalista Frances Robles, que cobre a Nicarágua há mais de 20 anos, o regime já fez desaparecer entre 30 e 40 pessoas. Por exemplo, o engenheiro computacional José Alejandro Hurtado sumiu em janeiro, depois que a polícia pediu que ele comparecesse à delegacia para tratar de um suposto caso de identidade roubada e usada para alugar um carro.

Hurtado, com 57 anos, é ativista político há muito tempo e propôs um plano de “diálogo nacional e eleições”, segundo seu irmão. Em casos como esse, o regime nem sequer assume que deteve os desaparecidos. A reportagem de Robles sobre os desaparecimentos foi publicada no último domingo no jornal The New York Times.

Grupos de direitos humanos calculam que há 73 novos presos políticos na Nicarágua desde 2023. Quase metade deles não aparece em bancos de dados dos tribunais. Centenas de manifestantes já foram presos ou mortos, outras centenas precisaram fugir do país.

Em agosto deste ano, as famílias dos desaparecidos ficaram mais apreensivas depois que dois deles apareceram mortos. Mauricio Petri, que havia sido preso com esposa e filho em uma detenção em massa de membros de uma igreja alvo do regime, teve seu corpo devolvido à família 38 dias depois. A ditadura bloqueou pedidos de autópsia e apressou o enterro.

Carlos Cárdenas Cepeda, um advogado da Igreja Católica, também foi devolvido morto à família, quatro dias depois de Petri. Ele passou duas semanas detido.

Dos 33 prisioneiros desaparecidos, ao menos uma dúzia tem mais de 60 anos e muitos, como Hurtado, sofrem de diabetes e pressão alta. Um dos detidos tem 81 anos. O número total é uma provável subestimativa, pois muitas famílias são intimidadas ao silêncio, segundo Reed Brody, membro do Grupo das Nações Unidas de Especialistas em Direitos Humanos na Nicarágua.

Os desaparecidos são líderes comunitários, professores, chefes indígenas, jornalistas e pastores. As famílias sofrem ameaças do regime contra sua integridade e propriedade por visitarem prisões em busca de seus entes queridos.

O ditador fez desaparecer até a própria cunhada, Angelica Chavarría, em maio de 2024. Ela sumiu no mesmo dia em que Humberto Ortega, seu esposo e irmão do ditador, foi posto em prisão domiciliar. Humberto, que participou da Revolução Sandinista junto ao irmão, havia sido chefe das forças armadas durante uma transição democrática nos anos 1990 e, mais recentemente, questionou publicamente o regime ditatorial de Daniel. Ele morreu no ano passado, aos 77 anos. O regime alega que a causa da morte foi problema cardíaco.

Uma peculiaridade do regime sandinista é que a esposa de Daniel Ortega, Rosario Murillo, é co-ditadora desde fevereiro, após passar oito anos como “vice-presidente”. Como Ortega fará 80 anos em novembro, Rosario, com 74 anos, já articula como manter mão de ferro caso o marido morra.

Rosario Murillo e Daniel Ortega, co-ditadores da Nicarágua, em setembro de 2024. Foto: Consejo de Comunicación y Ciudadanía del Gobierno de Nicaragua
Rosario Murillo e Daniel Ortega, co-ditadores da Nicarágua, em setembro de 2024. Foto: Consejo de Comunicación y Ciudadanía del Gobierno de Nicaragua

Jornalismo que lembrou amizade entre Lula e Ortega sofreu censura do TSE em 2022

Em outubro de 2022, escrevi a reportagem “Relacionamento entre Lula e ditador da Nicarágua está bem documentado”. Era uma resposta à censura aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral a publicações de redes sociais, inclusive um tweet da Gazeta do Povo, que lembraram a relação amistosa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Daniel Ortega quando o último baniu o sinal da CNN em seu país.

A campanha de Lula também pediu que minha reportagem fosse censurada, mas, ao menos dessa vez, não conseguiu o que queria. Na reportagem, lembrei que Ortega em 2007 até fez as vezes de chofer para buscar Lula no aeroporto de Manágua. O apreço era mútuo: os governos do PT passaram anos, desde 2009, tentando articular a construção de uma hidrelétrica na Nicarágua com dinheiro do BNDES.

Após um período de silêncio e conivência, como em março de 2023, quando o Brasil se recusou a assinar uma declaração conjunta de 55 países condenando violações do regime, o governo Lula 3 precisou criticar o regime de Ortega.

Desde que o ditador colocou o alvo na Igreja Católica, a relação explícita de amizade ficou insustentável. Em 23 de junho de 2023, o Brasil assinou uma resolução da Organização dos Estados Americanos pedindo um “retorno à democracia” na Nicarágua. No mesmo mês, Lula timidamente reconheceu “um problema” na perseguição aos católicos.

Em agosto de 2024, a relação azedou, quando Ortega ordenou a retirada de seu embaixador do Brasil, o que teve resposta recíproca. Em setembro, o Itamaraty subiu o tom e disse que Ortega empreende uma “campanha de repressão”. Ainda não é um rompimento diplomático, só um resfriamento da relação, pois algumas atividades consulares seguem normalmente.

A última vez em que Lula mencionou seu ex-amigo ditador foi em agosto de 2024, em entrevista à rádio MaisPB, da Paraíba. Ele relatou que tentou falar com Ortega a pedido do Papa Francisco a respeito do bispo Rolando Álvarez, preso pelo regime.

Ortega “inventou 500 mil desculpas para não me atender”, disse Lula. “Então eu parei de ligar”.

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