Por Ary Alcântara*
Os Estados Unidos fecharam um acordo sobre tarifas comerciais com o Japão e outros países asiáticos. O Reino Unido e a Comunidade Econômica Europeia estão na mesma direção. A Coreia do Sul já anunciou uma proposta semelhante e deve avançar, assim como a Índia, entre outros. Canadá e México permanecem como parceiros naturais e estratégicos, por serem vizinhos e fronteiriços.
Em relação à China — o grande parceiro comercial global —, Scott Bessent, secretário do Tesouro Americano, anunciou uma prorrogação nas negociações, e o presidente Donald Trump demonstrou otimismo. Há, inclusive, uma agenda de viagem prevista para um encontro com Xi Jinping. Ou seja, o acordo com a China já está praticamente consolidado, restando apenas ajustes finais.
O modelo apresentado por Stephen Miran em artigo recente aponta para uma vitória política clara de Trump, consolidando sua estratégia comercial. Da mesma forma no texto de Marco Degaut. Quando questionado sobre um possível acordo com o Brasil, Bessent afirmou que a questão está sob responsabilidade da Casa Branca. Ou seja, o Brasil está fora das prioridades imediatas.
E o Brasil? Nada. A comissão do Senado brasileiro que viajou aos Estados Unidos não receberá mais do que silêncio. O País não avançou. Pior, Lula e o STF dobraram a aposta. Os discursos do presidente, como o recente proferido no Chile, além de sua interlocução com a presidente do México, apenas acentuam sua postura crítica e agressiva à democracia liberal praticada pelo governo Trump, e objeto claro de suas manifestações políticas, principalmente a do vice-presidente, JD Vance, em Munique.
No caso do STF, a situação é ainda mais evidente. A Suprema Corte se consolidou como o verdadeiro centro de poder e nesta linha, de oposição ao governo americano, especialmente ao controle de informações pelas redes. Trump percebeu isso com clareza e, por isso, evita qualquer negociação com um país que, em sua visão, vive sob um estado de exceção. Deixou claro em sua carta:
“A forma como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Este julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!
Devido em parte aos ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos (conforme recentemente ilustrado pela Suprema Corte brasileira, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS às plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e despejo do mercado de mídia social brasileiro).”
De fato, a realidade brasileira hoje é essa: um Estado capturado pela maioria do STF, com o ministro Alexandre de Moraes no comando. A Constituição e o Estado Democrático de Direito passaram a significar aquilo que o Supremo interpreta — o Congresso Nacional, nesse cenário, tornou-se um espectador impotente.
O jornal Valor Econômico chegou a considerar positivo o fato de Moraes ter descartado a prisão preventiva de Bolsonaro, vendo isso como um sinal de distensionamento institucional. Mas o efeito é o oposto: a medida reafirma a autoridade quase absoluta de Moraes e do STF, consolidando uma agenda autoritária.
Todos os episódios recentes — desde meados de 2019 — indicam essa trajetória de concentração de poder. E Trump está plenamente ciente disso. Ele mencionou esses fatores em sua carta sobre as tarifas e tem reiterado, com cada vez mais ênfase, a decisão de isolar o Brasil nas negociações — não apenas o governo, mas o próprio Estado brasileiro, seja qual for o partido no poder.
Lula, com seu discurso radical e contraditório, não terá acesso a nenhuma instância real de negociação. Seu discurso é ilusório. A retórica é de prestidigitação política. Mas o resultado é: o Brasil está fora do jogo.
*Ary Alcântara é analista de sistemas, professor em atuária, especialista em Previdência, consultor financeiro no desenvolvimento de produtos destinados a investidores institucionais
