Por Everardo Gueiros*
A nova visita do presidente Lula à China não surpreende. É mais um gesto dentro de uma tradição diplomática petista que insiste em trocar estratégia por afagos ideológicos e pragmatismo por alinhamento automático. Veste-se o discurso de soberania, mas o que se entrega, na prática, é uma política externa marcada por concessões sem exigências, elogios desmedidos e parcerias desequilibradas.
Sob o pretexto de construir um mundo multipolar, o Brasil petista tem reiteradamente colocado seus interesses estratégicos em segundo plano. A relação com a China é emblemática. Por mais relevante que seja esse parceiro no cenário comercial, o que se espera de uma diplomacia madura é reciprocidade, firmeza e lucidez, não reverência.
O viés ideológico de esquerda, recorrente nas diretrizes externas dos governos petistas, costuma pautar a conduta diplomática brasileira com critérios seletivos e convenientes.
Vide o caso de Cesare Battisti, terrorista condenado na Itália por assassinatos, que foi acolhido no Brasil como vítima de perseguição política, em um gesto que afrontou o bom senso, a justiça internacional e a lógica das relações civilizadas entre Estados. Esse tipo de decisão compromete a credibilidade do país e expõe nossa diplomacia a constrangimentos duradouros.
Agora, diante da China, repete-se o padrão. O Brasil se apresenta de chapéu na mão, oferecendo commodities, infraestrutura, acesso a setores estratégicos, enquanto silencia diante de temas sensíveis como propriedade intelectual, espionagem digital, padrões ambientais e práticas comerciais predatórias.
Essa diplomacia que fala grosso com democracias do Ocidente e sussurra reverente aos autocratas do Oriente não é nova. Já nos isolou em votações relevantes, nos distanciou de acordos comerciais vantajosos e nos colocou na contramão da prudência geopolítica. E segue, agora, a passos largos, na mesma trilha.
O Brasil precisa, sim, se relacionar com a China, mas como país soberano, não como satélite de conveniência. Precisamos vender, importar, investir e negociar, mas sem abrir mão de princípios, sem nos calar diante de desequilíbrios e, sobretudo, sem transformar nossas relações exteriores em instrumento de uma narrativa ideológica superada pelo tempo e pelos fatos.
Diplomacia não é palco para discursos sentimentais, nem um braço estendido de simpatias partidárias. É ferramenta de defesa do interesse nacional. E quando se falha nesse ponto, o prejuízo não é apenas de imagem. É de rumo, de segurança e de futuro.
* Everardo Gueiros é advogado e empresário. Foi secretário de Projetos Especiais do Governo do Distrito Federal, desembargador do TRE-DF, conselheiro Federal da OAB, presidente da Caixa de Assistência da OAB/DF e diretor da Escola Superior de Advocacia da OAB/PE.
